Correspondentes internacionais debatem cobertura eleitoral e memória política em encontro na UNIFACHA

Marcelo Lins, da GloboNews, e Anne Herrberg, da emissora pública alemã ARD, conversaram com estudantes brasileiros e jovens cineastas da Alemanha sobre jornalismo, democracia e os desafios de interpretar diferentes realidades políticas

A cobertura jornalística de eleições exige do correspondente internacional algo que vai além de acompanhar candidatos, pesquisas e resultados: é preciso explicar ao público de outro país as particularidades históricas, políticas e culturais que ajudam a compreender cada eleição. Esse foi um dos eixos do encontro The Role of International Correspondents During Election Periods, realizado nesta sexta-feira, 2 de outubro, no auditório da UNIFACHA, em Botafogo.

Promovida pela ABC Cursos de Cinema, em parceria com o Escritório de Relações Públicas, Intercâmbio, Empreendedorismo e Inovação Social (ERP) e com apoio do curso de Cinema da UNIFACHA, a atividade reuniu Marcelo Lins, jornalista da GloboNews, e Anne Herrberg, correspondente no Brasil da emissora pública alemã ARD.

Realizada integralmente em inglês, a conversa contou ainda com a participação de sete estudantes da Filmakademie Baden-Württemberg, instituição alemã dedicada à formação em cinema e produção audiovisual. Alunos e professores da UNIFACHA também acompanharam o debate.

Ao analisar o ambiente político latino-americano, Marcelo Lins chamou atenção para o avanço de governos e discursos de direita e extrema direita em diferentes países e para as consequências desse movimento para o exercício do jornalismo. O jornalista mencionou experiências recentes no Peru, na Colômbia, na Argentina e no Chile e recuperou a relação histórica da região com regimes autoritários.

“Quando olhamos para a América Latina, vemos movimentos semelhantes em diferentes países. No Peru, houve uma ampliação dos poderes da Presidência, inclusive em relação ao emprego das Forças Armadas. Na Colômbia, o novo governo adotou um discurso mais duro em relação às antigas guerrilhas e ao narcotráfico. Na Argentina de Milei, vemos ataques frequentes à imprensa, algo que também marcou a relação de Donald Trump com jornalistas”, afirmou Lins.

Para o jornalista, compreender esses movimentos também exige recuperar a história política latino-americana, especialmente as ditaduras que marcaram países como Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai durante a Guerra Fria.

Anne Herrberg abordou a questão a partir das diferenças históricas entre os países. A correspondente destacou que fenômenos políticos semelhantes não podem ser interpretados de maneira automática, sem considerar a relação de cada sociedade com seu próprio passado.

“Há uma forte resistência às políticas de Milei, inclusive em relação às políticas de memória, mas vemos certos discursos voltando a ganhar espaço. Isso acontece na Argentina, no Chile e também na Alemanha. É preciso considerar, porém, que cada país tem sua própria história”, disse.

Ao comparar Chile e Argentina, Herrberg lembrou que as duas sociedades construíram relações distintas com a memória de suas ditaduras. “No Chile, uma parcela da sociedade manteve uma visão positiva ou nostálgica do regime de Pinochet. A Argentina teve uma ditadura mais curta, mas extremamente violenta, que atingiu trabalhadores, estudantes e setores da classe média. Dessa experiência surgiu também uma forte mobilização social que, desde o fim da ditadura, reivindica memória, justiça e o julgamento dos responsáveis”, afirmou.

A discussão aproximou o trabalho cotidiano do correspondente internacional de questões como memória, democracia, liberdade de imprensa e contextualização histórica. Para quem noticia um país para audiências estrangeiras, acontecimentos políticos precisam ser traduzidos sem apagar as particularidades locais — um desafio que se torna ainda mais evidente durante períodos eleitorais.

A presença dos estudantes da Filmakademie Baden-Württemberg também ampliou a proposta de intercâmbio da atividade, colocando estudantes brasileiros e alemães em contato em uma programação que aproximou jornalismo, cinema e comunicação internacional.

Para Marcio Gonçalves, coordenador dos cursos de Jornalismo e de Relações Públicas da UNIFACHA, o encontro materializa uma das frentes de atuação do ERP. “Esse evento integra o propósito do ERP, que é promover atividades de intercâmbio, mobilidade estudantil e internacionalização da UNIFACHA”, afirmou.

A atividade faz parte da programação organizada pela ABC Cursos de Cinema durante a passagem dos jovens cineastas alemães pelo Rio de Janeiro e reforça a aproximação entre a formação acadêmica e a experiência de profissionais que trabalham diariamente com a interpretação de acontecimentos brasileiros e latino-americanos para audiências internacionais.

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