#2 Ponto de Influência

Faltam dois dias para o primeiro turno das eleições de 2026, e a campanha entrou em sua fase mais concentrada. Nos últimos dias, decisões judiciais, articulações partidárias e medidas anunciadas pelo governo passaram a dividir espaço com as pesquisas eleitorais e a disputa pelos últimos votos.

Por Luiza Torrão

Estudante de Jornalismo

O calendário eleitoral também começa a impor limites às campanhas. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, terminou a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, assim como o prazo para propaganda paga ou impulsionada na internet. Nesta sexta-feira (2), termina o período para veiculação de propaganda paga em jornais e revistas. No sábado (3), chega ao fim a distribuição de materiais gráficos. No domingo (4), mais de 155 milhões de eleitores estarão aptos a votar.

Enquanto candidatos concentram esforços na reta final, medidas anunciadas pelo governo federal nas últimas semanas terão efeitos para além da eleição. O Desenrola Brasil 3.0, por exemplo, foi instituído por medida provisória em 25 de setembro e tem duração prevista até junho de 2028. A medida autoriza a União a adquirir e renegociar carteiras de dívidas de pessoas físicas inadimplentes.

A reta final da campanha, portanto, também antecipa disputas que continuarão depois das urnas: a formação de maiorias no Congresso, as alianças para um eventual segundo turno e a agenda econômica que chegará a 2027.

O que circula nos corredores

Partidos já calculam alianças para o segundo turno

O União Brasil decidiu apoiar Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno contra Lula. A articulação prevê a mobilização da estrutura partidária, incluindo prefeitos e deputados, e o anúncio formal deve ocorrer depois da votação de domingo.

A movimentação acompanha negociações que já vinham ocorrendo nos bastidores. PP e União Brasil eram procurados pela campanha de Flávio para uma eventual segunda etapa da disputa. Os cálculos partidários, porém, passam também pelo tamanho das bancadas que sairão das urnas e pela disputa pela presidência do Senado em 2027.

Com isso, as alianças nacionais dependem de uma equação que envolve a corrida presidencial, os resultados nos estados e a nova composição do Congresso.

O debate que não aconteceu

O debate presidencial previsto para quinta-feira (1º) na TV Globo foi cancelado após a ausência de Lula e a desistência de Flávio Bolsonaro. O programa também havia sido afetado por decisões judiciais que alteraram regras definidas pela emissora.

Na véspera, Lula confirmou que não participaria do encontro. Flávio Bolsonaro havia anunciado presença, mas desistiu após decisões que, entre outras mudanças, proibiram a exibição do púlpito reservado ao presidente e impediram que os demais candidatos simulassem perguntas dirigidas ao ausente.

O cancelamento abriu uma discussão que ultrapassa os efeitos imediatos sobre as campanhas. De um lado, está a autonomia editorial das emissoras para estabelecer as regras dos debates; de outro, a competência da Justiça Eleitoral para impedir que essas regras produzam tratamento considerado desigual entre os candidatos.

O episódio deixa uma questão que provavelmente retornará em eleições futuras: até onde pode ir a intervenção judicial sobre formatos jornalísticos definidos pelas emissoras durante uma campanha eleitoral?

Onde o poder se encontra

Calendário eleitoral entra em contagem regressiva

Nesta sexta-feira, 2 de outubro, termina o prazo para veiculação de propaganda eleitoral paga em revistas e jornais impressos. No sábado, chega ao fim a distribuição de materiais gráficos. No domingo, acontece a votação do primeiro turno.

Com as restrições previstas no calendário eleitoral, as campanhas concentram os últimos movimentos em agendas presenciais, manifestações permitidas pela legislação, redes sociais e articulações partidárias.

Os partidos também começam a fazer contas que vão além da eleição presidencial. A composição da Câmara e do Senado, os governos estaduais e o tamanho das bancadas partidárias serão determinantes para as negociações políticas a partir de 2027.

Negócios em movimento

Mercado eleva projeção para inflação

O Relatório Focus divulgado nesta semana mostrou nova revisão das expectativas para a economia brasileira. A projeção do mercado para a inflação oficial de 2026 chegou a 4,99%, acima do teto da meta.

O dado foi divulgado poucos dias depois de o IPCA-15 registrar alta de 0,70% em setembro, levando o acumulado em 12 meses a 4,47%. A energia elétrica exerceu forte pressão sobre o índice, principalmente com o fim do efeito do bônus de Itaipu observado no mês anterior.

Inflação, juros, crescimento e situação fiscal estarão entre os principais temas econômicos na mesa do governo que tomar posse em 2027.

No radar

Governo regulamenta benefício a mulheres vítimas de violência doméstica às vésperas da eleição

Na quinta-feira (1º), o governo federal assinou parecer vinculante que assegura o afastamento remunerado, por até seis meses, de mulheres vítimas de violência doméstica quando houver determinação judicial.

A medida estabelece que, para seguradas do Regime Geral de Previdência Social, não será necessária nova perícia médica nem análise de mérito pelo INSS. A determinação judicial que autoriza o afastamento permite a concessão do benefício, que terá atendimento prioritário e sigiloso.

O anúncio ocorreu três dias antes do primeiro turno, o que levou parte da cobertura política a chamar atenção para a proximidade entre a medida e a votação.

Do ponto de vista jornalístico, a coincidência temporal merece registro, sem que ela, isoladamente, permita atribuir intenção eleitoral ao governo. O acompanhamento relevante será observar como medidas de proteção social são incorporadas ao discurso político na reta final da campanha e quais efeitos terão depois das eleições.

NÚMERO DA SEMANA

56%

É a parcela dos entrevistados que declarou não confiar no Supremo Tribunal Federal na pesquisa Quaest divulgada em setembro.

O índice era de 46% em agosto. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

O dado ganha relevância em uma semana marcada por decisões judiciais que afetaram diretamente a organização do último debate presidencial previsto antes do primeiro turno.

FRASE DA SEMANA

“O Brasil é um país muito importante”

A declaração foi dada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ser questionado sobre as eleições brasileiras. Ele afirmou acompanhar o pleito “muito de perto” e classificou a eleição como “muito importante”, sem declarar apoio a nenhum candidato.

A atenção de Washington à eleição brasileira ocorre em meio a uma relação bilateral marcada por questões comerciais, tarifárias e diplomáticas. O resultado das urnas, portanto, interessa também aos principais parceiros internacionais do Brasil.

QUEM ENCONTROU QUEM

A política já faz contas para o segundo turno

O primeiro turno ainda não aconteceu, mas dirigentes partidários já discutem possíveis alianças para a segunda etapa da eleição presidencial.

No União Brasil, a direção nacional articula a mobilização de prefeitos e deputados em favor de Flávio Bolsonaro caso o senador avance para o segundo turno contra Lula.

As negociações antecipadas mostram como a votação de domingo tem duas dimensões para os partidos: definir quem continua na corrida presidencial e estabelecer o peso político de cada legenda nas negociações que começam imediatamente depois da apuração.

AGENDA DA PRÓXIMA SEMANA

Primeiro turno — 4 de outubro

Mais de 155 milhões de eleitores estarão aptos a votar para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital.

Novo mapa do Congresso

Além da disputa presidencial, os partidos acompanharão de perto o tamanho das bancadas eleitas. A nova composição da Câmara e do Senado terá efeito direto sobre a capacidade de articulação do governo que assumir em 2027.

Articulações para o segundo turno

Caso nenhum candidato à Presidência alcance a maioria necessária no primeiro turno, as negociações entre partidos devem começar imediatamente após a apuração. Algumas legendas já antecipam conversas e posicionamentos.

Economia depois das urnas

Inflação, juros, crescimento, dívida pública e programas de crédito continuarão na agenda depois da eleição. A projeção de inflação de 4,99% registrada pelo Focus acrescenta pressão ao debate econômico que atravessará a transição para 2027.

Para ficar de olho

A votação termina no domingo. As negociações continuam na segunda.

O primeiro turno de 4 de outubro encerra uma etapa da disputa e redefine as condições para a seguinte.

O tamanho das bancadas, os resultados estaduais, os candidatos que avançarem para o segundo turno e os apoios negociados nos próximos dias começarão a reorganizar as forças políticas para 2027.

Na economia, o calendário eleitoral tampouco encerra as questões abertas durante a campanha. A inflação projetada pelo mercado permanece acima do teto da meta, enquanto programas anunciados nas últimas semanas, como o Desenrola Brasil 3.0, produzirão efeitos muito depois da contagem dos votos.

As urnas de domingo definirão vencedores e derrotados. Na segunda-feira, partidos, Congresso, mercado e governo já estarão fazendo outras contas.

Deixe um comentário