De craque de futebol a influencer literário: como um passatempo de Gustavo Scarpa mobilizou torcedores e reacendeu o debate sobre hábitos de leitura no Brasil 

Foto capa: Reprodução/Instagram

Por Rafaella Gama

Gustavo Scarpa, meio-campista do Atlétic-MG revelado nas categorias de base do Fluminense e hoje um dos jogadores mais conhecidos do futebol brasileiro, construiu ao longo da carreira uma reputação pouco comum no meio esportivo: a de leitor voraz, que compartilha resenhas de livros nas redes sociais. O alcance das resenhas ficou evidente quando uma das indicações, A Morte de Ivan Ilitch, chegou à lista dos livros mais vendidos da Amazon, e parte da torcida atleticana criou a “Galeitura”, clube de leitura inspirado nas recomendações do atleta. Esse comportamento tem influenciado colegas de equipe e torcedores em um momento em que os índices de leitura no Brasil — sobretudo entre os homens — seguem em queda. O fenômeno levanta dúvidas sobre a possibilidade de gerar efeitos a longo prazo na população brasileira e sobre o peso da atitude de um jogador de futebol em meio a tantos outros influenciadores literários do país.

Scarpa é um contraponto ao estereótipo do atleta desinteressado pela cultura letrada. Ávido leitor, costuma publicar em seu Instagram críticas e comentários sobre livros de autores como Albert Camus, Ernest Hemingway, Fiódor Dostoiévski, Machado de Assis e William Shakespeare, além de manter uma série de stories fixados chamada “Livros lidos”. Além disso, promoveu um sorteio de livros para seus seguidores em parceria com sua assessoria, justamente para incentivar a leitura entre os fãs, e já participou de um evento universitário na Unicamp sobre a importância dos livros na rotina de um jogador de futebol.

Esse tipo de exposição pública ganha relevância justamente porque os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostram uma tendência estrutural preocupante: em nove anos, o país perdeu mais de 11 milhões de leitores, passando de 56% de leitores em 2015 para 47% em 2024. Foi a primeira vez, desde 2007, que o Brasil registrou mais “não leitores” do que leitores. A queda atinge todos os grupos — mulheres e homens, adultos e crianças, todas as regiões e classes sociais —, mas as mulheres, historicamente à frente nos índices de leitura, seguem na liderança, o que reforça a defasagem entre os sexos. A concorrência está nas telas: se, em 2015, metade das pessoas preferia usar a internet no tempo livre, hoje esse percentual chega a 80%, contra apenas 20% que preferem ler. O motivo mais citado para não ler é a “falta de tempo” (46% dos entrevistados), seguido do desinteresse pelo hábito (26%).

É nesse cenário que a atitude de Scarpa ganha peso: um ídolo esportivo, em um ambiente tradicionalmente associado a outros valores, torna a leitura desejável e “normal” para um público masculino que hoje lê cada vez menos. Com isso, testa-se se o exemplo individual de uma figura pública consegue romper uma tendência estrutural de queda.

Entre os torcedores, o efeito é percebido de formas distintas. A auxiliar financeira Lara Fanny Alves Fernandes da Cruz, de 23 anos, de Belo Horizonte, já conhecia o gosto do jogador pela leitura e observa que “o livro foi parar no top 1”, com páginas de torcedores do Atlético comprando e recomendando o título. Já a atendente Manuela Castro Moraes, de 19 anos, de Carangola (MG), só acompanhava o jogador pelo esporte e, depois de assistir às resenhas, decidiu retomar o hábito da leitura, que havia abandonado por causa da rotina acelerada. Ela também aponta um obstáculo cultural: no ambiente do futebol, a leitura sofre preconceito, “como se ler fosse menos masculino ou desnecessário”.

Para a professora universitária e comunicadora Camila Augusta, o futebol midiático “sobrevive de ídolos”, e Scarpa não é um influenciador convencional: “Ele é um jogador de futebol que gosta de ler”. Ela destaca que ele “não está mandando você fazer aposta, ele está sugerindo livros para você ler”, o que configura uma “dimensão educativa” em um momento de menor frequência de leitura e de redução do número de livrarias. Por se tratar de um esporte masculinizado, avalia, ver um jogador sensível indicando livros ajuda a desfazer estereótipos, e o exemplo se estende aos companheiros de equipe: “O ídolo dá exemplo”. Ela lembra nomes como Sócrates, do Corinthians, Afonsinho, do Botafogo, e Raí, do São Paulo, e cita o “Cruleitores”, clube de leitura de torcedores do Cruzeiro que foi apagado em menos de 24 horas após ataques nas redes sociais. Para ela, o caso mostra como a rivalidade pode atrapalhar uma ação de alcance nacional.

A lista de atletas conhecidos pelo lado intelectual não se resume aos nomes lembrados pela professora: Danilo, jogador do Flamengo, também é descrito como leitor ávido e estudioso de psicologia e comunicação. Ainda assim, cinco nomes, incluindo Scarpa, em meio a milhares de jogadores profissionais, representam um número pequeno, o que ajuda a ilustrar o cenário traçado pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Do ponto de vista da indústria editorial, Beatriz Labadessa de Oliveira, de 24 anos, revisora e editora-chefe da Editora Violeta, em Marília (SP), afirma que indicações de artistas e influenciadores tendem a elevar as vendas e que perfis com mais de 200 mil seguidores costumam gerar impacto no mesmo dia. Sobre o caso Scarpa, reconhece que há repercussão, mas considera o efeito “menos avassalador do que se imagina a longo prazo”. Ela define o efeito manada como um pico passageiro, ainda que represente “um passo de formiga em direção a algo maior”.

Questionada sobre a possibilidade de a mudança ser duradoura, Camila Augusta admite que essa é uma pergunta difícil: ninguém prevê o futuro e, em um cenário no qual tudo acontece muito rápido, qualquer projeção é arriscada. Ainda assim, ressalta que alguma transformação já está em curso e pode ser observada na prática: a procura pelos livros indicados, a criação da Galeitura, os comentários e o engajamento nas redes sociais. Ver uma torcida fundar um clube de leitura é, para ela, algo “muito surreal”. São o que ela chama de “resultados pontuais”, mas que bastaram para que Scarpa se tornasse “um símbolo no futebol brasileiro de estímulo à leitura”, promovendo uma prática que, segundo a professora, é difícil de encontrar hoje. Ela pondera, porém, que o jogador não deve ser endeusado. Segundo Camila, ele “só resolveu gravar o que ele gosta” e, na avaliação dela, nem imaginava a dimensão que isso alcançaria. Trata-se, resume, de “um fenômeno que está acontecendo ainda, mas que merece destaque”, cujos efeitos já aparecem em diversos segmentos, embora ainda não se saiba o que virá. Não se trata de transformá-lo em uma figura maior do que realmente é, conclui, mas ele já é um exemplo, e isso “não tem como a gente negar”.

Entre o pico passageiro apontado pela editora e o símbolo que a professora vê se consolidar, ainda é cedo para dizer se o exemplo individual de uma figura pública é capaz de romper uma tendência estrutural de queda. Um país que perdeu mais de 11 milhões de leitores em nove anos não reverte esse quadro com uma única resenha. O que o caso Scarpa já demonstra são resultados concretos: um livro no topo das vendas, clubes de leitura criados por torcedores e uma discussão sobre leitura em um ambiente no qual ela raramente aparece. O desfecho, porém, depende de os torcedores continuarem lendo quando o assunto deixar de ser tendência nas redes sociais. Só então será possível avaliar a dimensão do poder de uma figura pública que usa sua influência para promover a literatura e a cultura.

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