Dia da MPB: como o gênero dos anos 60 foi redescoberto pela nova geração

Foto capa: Reprodução/iBahia

Por Rafael Lisboa

Em 2026, Maria Rita realiza a turnê “Redescobrir Vol. 2”, cantando sucessos da MPB gravados originalmente por sua mãe, Elis Regina. No entanto, essa história começou em abril de 1965, quando a extinta TV Excelsior realizou o I Festival de Música Popular Brasileira, popularizando a sigla MPB. O gênero e a sigla reuniam inicialmente artistas da segunda geração da bossa nova e o engajamento folclórico dos Centros Populares de Cultura (CPCs), que se manifestavam entre estudantes do Rio de Janeiro. Embora esses grupos tivessem propósitos iniciais diferentes, com a bossa nova defendendo a sofisticação musical e os estudantes valorizando a identidade brasileira, o golpe de 1964 favoreceu essa aproximação, levando à utilização da MPB como forma de luta.

Depois de quase cinco décadas e de transformações políticas no país, a MPB passou a ter um dia no calendário nacional. Em decreto sancionado pela então presidente Dilma Rousseff, em 2012, o dia 17 de outubro foi escolhido para celebrar o gênero, em homenagem ao aniversário da maestrina Chiquinha Gonzaga (1847 a 1935), um dos pilares da música nacional, especialmente no choro e nas marchas carnavalescas.

Mesmo com o passar do tempo e o crescimento de novas vertentes musicais que se distanciam ritmicamente da MPB, como o sertanejo, o funk e o pagode, a Música Popular Brasileira voltou a demonstrar sua relevância, embora sob novas formas de consumo e com o surgimento de novas vozes.

Surgimento e declínio do movimento

Nascida em um momento de enfraquecimento da bossa nova e impulsionada pelos festivais de música na televisão brasileira, principalmente os realizados pela Record, a MPB não possuía uma única identidade sonora. O gênero abrangia artistas que criavam músicas brasileiras a partir de diferentes estilos e tradições. Já na década de 1960, era possível perceber as diferenças entre a Tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa (1945 a 2022), que combinavam guitarra e berimbau, e a Jovem Guarda, de caráter mais roqueiro, representada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos (1941 a 2022) e Wanderléa, embora ambos os movimentos fizessem parte do cenário musical brasileiro.

Para além do aspecto rítmico, a MPB também se caracterizou pela oposição à ditadura militar, em um período de intensificação da repressão. Canções como “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, e “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, tornaram-se hinos de resistência ao governo da época. Ao mesmo tempo, “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, chegou a ser censurada e impedida de ser apresentada ao vivo. Gil e Caetano foram presos em 1968 e, posteriormente, exilaram-se em Londres, onde permaneceram por cerca de três anos.

Foto: Arquivo pessoal/Gilberto Gil

No entanto, embora o gênero tenha revelado vozes marcantes, como Elis Regina (1945 a 1982), Milton Nascimento e Djavan, o período posterior à redemocratização pode ser visto como uma fase de declínio da influência da MPB. Com a popularização da axé music no Carnaval da Bahia, do sertanejo no Centro-Oeste e no interior de São Paulo e do Paraná, além do funk carioca, esses estilos ganharam espaço na mídia, ultrapassaram fronteiras estaduais e reduziram a influência da MPB.

Enquanto Roberto Carlos liderava diversas listas de álbuns mais vendidos durante as décadas de 1960 e 1970, o cantor, que transitou do rock à música romântica ao longo de sua carreira, perdeu espaço nas listas de vendas para a música infantil na década de 1980, representada por artistas como Xuxa e grupos como o Balão Mágico. Já nos anos 1990, as duplas sertanejas, como Zezé Di Camargo e Luciano e Leandro e Leonardo, ganharam destaque. Nos anos 2000, já na era do CD, Sandy & Junior e o padre Marcelo Rossi lideraram as vendas.

O digital como forma de retorno

A situação começou a mudar com a transição dos formatos físicos para os digitais, principalmente a partir da década de 2010. A popularização do YouTube e do Spotify, com opções de acesso gratuitas e pagas, permitiu que uma nova geração descobrisse artistas da chamada “velha guarda” da MPB. Um exemplo é Eduarda Ortolá, bacharel em Artes Cênicas, que, aos 22 anos, se declara fã de Elis Regina. Ela descobriu versões de músicas da artista em musicais publicados na plataforma do Google e esteve presente no show de Maria Rita, realizado no Vivo Rio no dia 10, para acompanhar o repertório da mãe da cantora.

A jovem, que também se tornou ouvinte de Milton Nascimento e Gal Costa, ressalta que gostaria de ter acesso aos discos de vinil, mas reconhece as vantagens de poder ouvir álbuns e apresentações ao vivo completos de Elis Regina, inclusive alguns que não foram lançados em formato físico.

“Gosto de escutar alguns discos por completo, como o Elis, de 1972, que considero uma experiência muito intimista. Também já ouvi gravações completas de shows da Elis, como Transversal do Tempo e Falso Brilhante. Posso dizer que ser fã de Elis enriqueceu completamente o meu repertório artístico”, completa Eduarda.

Foto: Arquivo pessoal

Entretanto, o crescimento do interesse pela MPB entre a geração Z não se restringe a admiradores como Eduarda. De acordo com dados divulgados pelo Spotify, o consumo de MPB cresceu 47% na plataforma, impulsionado principalmente por usuários entre 18 e 24 anos. Entre os artistas mais ouvidos, destaca-se Djavan, com cerca de 7 milhões de reproduções mensais, além de Vanessa da Mata e Marisa Monte, importantes representantes femininas da música brasileira em carreira solo. O crescimento também foi observado em aplicativos como o TikTok, com a redescoberta de músicas como “Aliança”, dos Tribalistas, e “Acenda o Farol”, de Tim Maia, que viralizaram nos últimos dois anos.

O surgimento de novos artistas também promoveu a retomada do gênero

Em um movimento mais recente, denominado “nova MPB”, artistas como Liniker, Marina Sena e ANAVITÓRIA ganharam destaque na década atual e conquistam cada vez mais público. Com referências que vão de Gal Costa a Nando Reis, a nova geração da Música Popular Brasileira também não possui um ritmo específico e incorpora influências de outros estilos, especialmente do pop.

Nesse contexto, o estudante Rafael Santos, de 20 anos, também se descobriu fã de MPB. Criado em um lar onde músicas de Ivete Sangalo, Rita Lee e Cazuza eram frequentes, o jovem ampliou seus horizontes musicais e desenvolveu uma conexão com o duo ANAVITÓRIA e o cantor Jão, artistas cujos shows já teve a oportunidade de acompanhar. Suas experiências de vida também contribuíram para essa identificação.

Rafael conta que Jão foi o primeiro artista cuja discografia conheceu por completo, durante a pandemia, além de ter sido responsável por ajudá-lo a encontrar um nicho musical com o qual se identificasse. O estudante também relata que gostaria de dar uma chance à mídia física, mas continua montando playlists e descobrindo álbuns e apresentações completas nas plataformas digitais.

“Queria muito dar uma chance aos formatos físicos, principalmente para reduzir o tempo de tela, mas continuo usando o Spotify como minha principal fonte de música, assim como o YouTube, quando quero escutar versões ao vivo. Tenho uma playlist de músicas brasileiras que escuto muito quando preciso de uma trilha sonora para realizar tarefas, mas, fora isso, acabo escolhendo ouvir os álbuns completos”, completa o estudante.

Foto: Arquivo pessoal

Entre as novas e as antigas gerações, pode-se dizer que a Música Popular Brasileira continua resgatando e difundindo a brasilidade por meio de ritmos e melodias para diferentes públicos, apesar das mudanças nos formatos de consumo e das diferenças entre as gerações.

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