A experiência do jornalismo alinhado às causas humanitárias

Por Brenda Balbi e Idries Bernstein

Evaldo José no aeroporto voltando para o Brasil, acompanhado pelos amigos feitos, Frank(Direita) e Joe Joe (Esquerda)

O coordenador de jornalismo da FACHA, Leandro Lacerda, mediou na manhã desta quarta (04/11) o segundo dia de apresentações do FACHA Festival, oferecido aos alunos e ao público em geral através de lives, com o tema “Jornalismo e Voluntariado – Uma experiência na África em tempos de COVID-19”. Evaldo José Palatinsky, formado em Filosofia, Teologia e Jornalismo pela UFRJ, professor, coordenador pedagógico e locutor esportivo de rádio, contou um pouco de sua história ao parar todas as atividades profissionais em 2019 para dedicar-se ao trabalho voluntário no Dzaleka, um campo de refugiados no Malawi.

A experiência teve duração de quatro meses e Evaldo contou que o ponto primordial para essa decisão foi tomada à partir de cinco pilares: disponibilidade de tempo, apoio familiar, condição física e mental, saúde e vontade de se aventurar. Frisou, no entanto, que esses cinco pilares quase nunca estão 100% amarrados e que a vontade de se aventurar numa jornada de autoconhecimento é de extrema importância.

Leandro Lacerda, à esquerda, e Evaldo José, à direita, conversando durante a live

Dzaleka Refugee Camp nasceu em 1994 com o intuito de abrigar, principalmente, os 9.000 sobreviventes do massacre de Ruanda. Dzaleka, em tradução livre,significa “fim da linha”, por conta do local ter sido usado por muito tempo como um presídio de segurança máxima. Hoje, felizmente, é visto como um lugar para recomeços para esses imigrantes que após um tempo, conseguem um documento chamado Nansen que os dá o direito de trocar seus nomes e literalmente recomeçar. Esse ato tem uma importância significativa, já que a maioria dos imigrantes escolhem nomes bíblicos, de heróis africanos ou de figuras representativas, como Mahatma, Abraão e Joseph, por exemplo.

Entretanto, a situação de Malawi está longe de ser ideal. Com a pandemia do Covid-19, os abismos aumentaram exponencialmente no país com a desvalorização da moeda local, que para chegar à um dólar é necessário mil kwachas. O orçamento de uma família no campo de refugiados, contudo, é de três dólares por mês. Como agravante, o Malawi não permite que os refugiados trabalhem fora dos campos, o que os deixam constantemente em estado de vulnerabilidade.

Evaldo José conversando com duas crianças em um dos locais de construção de casas no campo de refugiados

A água potável também é um problema. Os poços distribuídos pelo território do campo de refugiados são responsáveis por abastecer mais de 40 mil pessoas, em torno de 1.500 pessoas por poço. A água é utilizada para questões básicas de sobrevivência, como cozinhar, tomar banho e lavar louças e roupas. A alimentação dos refugiados também merece atenção, que frente ao grande cenário de desnutrição vivido no campo, a maioria dos alimentos demanda uma grande quantidade de sal, óleo e açúcar para gerar mais energia e garantir a sobrevivência dessas pessoas que têm muitas vezes apenas uma refeição por dia.

Dentre os principais alimentos da região, Evaldo destacou o papel do milho branco como elemento central na alimentação de todos na comunidade. Destacou também a feira que acontece no campo, toda terça e sexta, entre malawianos e refugiados que serve para que possam cambiar alimentos e objetos, garantindo dinheiro e alimentos necessários para sobrevivência.

Mesmo diante de tantas situações, o jornalista enfatizou sobre a fé na vida dos habitantes da comunidade. Aos domingos, a família toda frequenta uma das 812 igrejas/templos que existem e, mesmo em um local com diversas religiões e culturas coexistindo, nunca sentiu tanta resiliência como maneira de enfrentar as dificuldades.

Evaldo José no contato com crianças refugiadas do Dzaleka Refugee Camp

Uma das perguntas dos participantes da live  foi a respeito do momento mais marcante vivido pelo radialista. Sobre isso, Evaldo afirmou não ter uma resposta pronta pois já contou suas experiências mais de 30 vezes e em nenhuma delas repetiu as falas; sempre tem alguma coisa para ser acrescentada.

Finalizou destacando a percepção do seu papel como apenas uma peça do cenário ali vivido:

“Nunca tinha vivido uma conexão tão forte com as pessoas. Quando ela entende que você está ali pelo amor à causa, que você está ali para aprender e compartilhar e não ser superior, elas se conectam a você. (…) Não tente chegar como salvador da pátria, com a intenção de ensinar nada.”, enfatizou.

Ao voltar para o Brasil, Evaldo deixou claro a vontade de continuar o trabalho voluntário com o projeto Fraternidade Sem Fronteiras, do qual se tornou coordenador e que afirmou ter se conectado à essa causa permanentemente.

Confira, na íntegra, a live:

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