Sessão nostalgia: Retorno dos drive-ins durante a pandemia resgata ícone dos anos 1960 e promove novas atrações

Por Lucas Furtado, Nathalia Villaça e Valentina Sulam

É inegável que a pandemia do coronavírus ressignificou muitos dos nossos hábitos e estabeleceu um “novo normal”. A paralisação das atividades e a orientação de manter o isolamento social afetaram diversos setores da economia, sobretudo o da Cultura, que depende essencialmente de aglomeração para estar em funcionamento.

Desde março, por decreto do governador Wilson Witzel, foram fechados 382 cinemas no estado do Rio. Em abril, todos os 3.507 cinemas brasileiros estavam fechados por ordem de prefeituras e governos estaduais. Segundo a Abraplex, Associação Brasileira de Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex, ao jornal Hoje em Dia (MG), em junho, o prejuízo previsto é de R$1,3 bilhão.

Diante desse cenário, os drive-ins, ícones da cultura norte-americana entre as décadas de 1950 e 1960, estão novamente em evidência. Ampliando a proposta original de cinema onde se assiste ao filme dentro do carro, o novo modelo ganhou incrementos como apresentações de stand-up comedy e shows musicais para atrair as mais diversificadas plateias.

O retorno possibilitou que pai e filha vivenciassem juntos uma experiência que só o pai conhecia. O piloto da Aeronáutica já aposentado, Antônio Braga, de 72 anos, relembra que, nas tardes de domingo, havia a famosa “Sessão Coca-Cola”, em que o refrigerante era distribuído gratuitamente. “Apesar de ser caro pra época, era uma maneira de congraçar a família”, conta. Ele acredita que, embora tenha sido uma boa iniciativa durante a pandemia, os drive-ins não devem perdurar. “A sensação de estar em uma sala de cinema, com som surround, tela grande e cadeiras confortáveis, é muito agradável”, argumenta.

Já a cirurgiã-dentista Mariana Braga, de 25 anos, nunca tinha ido a um drive-in. A primeira vez foi em Nova Iorque, onde passou a quarentena. Lá, a reabertura estava na fase três e as pessoas podiam sentar no capô dos carros ou ficar no teto solar. De volta ao Brasil, ela foi com o pai e a irmã ao LoveCine, primeiro cinema drive-in 360º do mundo, no estacionamento da Jeunesse Arena, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Segundo ela, o diferencial foi o DJ que tocou antes do filme. “É bem legal porque nesse período de distanciamento não estamos podendo ir a festas, então acaba sendo uma dupla experiência”.

História do cinema drive-in:

Apesar da popularidade em tempos de pandemia, ainda é cedo para dizer se os drive-ins voltaram mesmo para ficar, especialmente com a eventual retomada das salas de cinema e casas de espetáculo no Brasil.

Uma das maiores controvérsias envolve a viabilidade econômica: os drive-ins praticamente só funcionam à noite, com número limitado de sessões e capacidade de público muito menor do que um cinema comum, o que não é interessante do ponto de vista comercial – e ainda encarece o valor do ingresso.

O preço elevado, aliás, é motivo de resistência por parte do público. Com entradas que custam, em média, R$ 100,00 por veículo, o formato é considerado pouco acessível. Além disso, boa parte da população brasileira não possui carros. Inclusive, há uma tendência crescente entre os mais jovens de não os comprar.

Mas embora tenha suas desvantagens, o drive-in nunca desapareceu por completo na história da indústria do entretenimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda existiam cerca de 300 drive-ins em 2019, de acordo com o United Drive-in Theatre Owners Association. Filmes como “O Último Cine Drive-In” (2015) e aparições em clipes musicais como “Doin’ Time” da cantora Lana Del Rey também provam que o formato permanece vivo no imaginário de milhares de pessoas.

Para quem nunca esteve em um cinema drive-in, é mais do que válido dar uma chance ao formato. A experiência vai muito além do espetáculo: a atmosfera vintage, o ar intimista e o clima romântico, originários das telonas a céu aberto, resultam em uma combinação perfeita para os amantes de nostalgia que habitam em cada um de nós.

Reabertura dos cinemas

Em 14 de setembro, a prefeitura do Rio decretou a liberação do funcionamento de cinemas com 50% da capacidade, todos os protocolos de higienização no intervalo entre as sessões e com o consumo de alimentos e bebidas proibido, mas os proprietários de cinemas decidiram não reabrir as salas na data. A proibição das bombonieres foi motivo de muitas reclamações já que, segundo o Sindicato das Empresas Exibidoras do Estado do Rio, mais de 60% do faturamento vem da venda de alimentos e a medida inviabilizaria sua retomada.

No dia 1° de outubro, no entanto, a prefeitura flexibilizou as regras para os cinemas, mas manteve todas as medidas de higienização, o distanciamento de dois lugares e a restrição de 50% da capacidade. A nova fase da flexibilização liberou as bombonieres e permitiu que grupos de até quatro pessoas possam se sentar juntos, desde que comprem ingressos juntos. O uso de máscaras é obrigatório, podendo ser retiradas apenas enquanto alimentos e bebidas estiverem sendo consumidos. A mudança fez as salas de cinema estarem de volta na vida cultural da cidade e os drive-ins estão sendo fechados, mas com a lembrança de ter proporcionado lazer e diversão, com segurança, em um dos momentos mais desafiadores da história da humanidade.

Ficha técnica:

Crédito capa: O Globo/ Rio Show

Pesquisa: Nathalia Villaça 

Roteiro: Nathalia Villaça e Valentina Sulam

Arquivos: Lucas Furtado, Nathalia Villaça e Valentina Sulam

Locução do vídeo: Lucas Furtado

Pesquisa de dados: Lucas Furtado

Busca de relatos: Valentina Sulam

Mapas: Nathalia Villaça

Editora: Bárbara Scarpa e Letícia Ponso

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