Kawan Pereira e Ingrid Oliveira são o Brasil nos Saltos Ornamentais de Tóquio, modalidade histórica e desafiadora

Foto de capa: Rebeca Doin 

Por Júlia Nascimento 

“Prova de coragem e perseverança”. Assim eram conhecidos os saltos ornamentais, modalidade muito respeitada pelo nível de dificuldade e risco desde sua origem. A tarefa não é simples: saltar de uma plataforma elevada, fixa ou não (trampolim), em direção a uma piscina, realizando uma série de movimentos acrobáticos e estéticos. Porém tal receio não impediu que este esporte começasse a ser praticado há cerca de quatro mil anos, existindo certa dúvida se primeiro por babilônios e egípcios ou gregos. Os pioneiros mergulhavam de pontos elevados até o mar para capturar comida ou tesouros perdidos.  

Foto: Reprodução/InfoEscola

A prática de maneira mais formal veio a partir de 1600, em países do norte da Europa, onde outra prática esportiva já se destacava: a ginástica. Pode-se observar, então, e relação entres essas duas modalidades, ambas exigindo muita plasticidade e elegância de seus atletas. Os saltos eram considerados uma variação da ginástica, não algo independente como hoje. Devido ao clima frio de seu local de origem, tinham que ser executados nas épocas mais quentes do ano. 

Outro esporte que deve ser colocado na fórmula que resultou nos saltos ornamentais é a natação, também praticada em piscinas de grande profundidade. Mas o maior benefício dela para a modalidade resultante foi a disseminação, pois o nado teve um momento de sucesso no século XIX e levou os saltos juntos, fazendo com que virasse moda, principalmente, nos países banhados pelos mares Báltico e do Norte.  

As primeiras competições conhecidas datam de 1822 e foram realizadas em Tischy, na Alemanha. Mas o primeiro registro de uma é apenas do ano de 1871. Local do salto: nada menos que a Ponte de Londres (London Bridge), usada como plataforma. Anos mais tarde, com a relativa popularização do esporte, foi construída uma torre de cinco metros também na capital inglesa. Na sequência, o destino da modalidade foi a América, mais especificamente os Estados Unidos. Porém foi apenas em 1973 que a Federação Internacional de Natação (Fina) realizou o primeiro Campeonato Mundial, em Belgrado, na então Iugoslávia. 

Regras 

Assim como a ginástica, os saltos ornamentais possuem regras e julgamentos (pelos árbitros) muito específicos e detalhados. Erros mínimos de execução ou de sincronismo são observados e descontados das notas finais. A altura da plataforma, em competições, chega a 10 metros. Os saltos são avaliados por sete juízes, que conferem a média do atleta. A seguir, as principais regras e métodos de pontuação listados pela Confederação Brasileira de Esportos Aquáticos (CBDA) no arquivo “Regras Oficiais Saltos Ornamentais 2017_2021”.  

Foto: Reprodução/Rede Nacional do Esporte 

– Um árbitro auxiliar (juiz) deve julgar um salto de 0 a 10 pontos de acordo com sua impressão geral e dentro dos seguintes critérios: 

Excelente 10 Pontos 

Muito Bom 8½ a 9½ Pontos 

Bom 7 a 8 Pontos 

Satisfatório 5 a 6½ Pontos 

Deficiente 2½ a 4½ Pontos 

Insatisfatório ½ a 2 Pontos 

Completamente Falho 0 Ponto 

– No julgamento de um salto, o árbitro auxiliar (juiz) não deve ser influenciado por outro fator que não a técnica e a execução do salto. O salto deve ser julgado sem considerar a aproximação para a posição inicial, a dificuldade do salto ou qualquer movimento feito abaixo da superfície da água. 

– Os pontos a serem considerados ao julgar a impressão geral de um salto são a técnica e a graça da: 

Posição Inicial 

Corrida (pulo para ponta) 

Saída 

O voo 

Entrada 

Figura ilustrativa da sequência que o saltador deve seguir – Foto: Reprodução/CBDA 

Quanto à posição inicial para o salto, essa deve ser: salto parado (quando o saltador se coloca na ponta do trampolim), salto com corrida (quando o saltador está pronto para realizar o primeiro passo da aproximação, a corrida) ou salto em equilíbrio (quando ambas as mãos estiverem sobre a plataforma e ambos os pés estiverem fora da plataforma).  

O salto pode ser executado nas seguintes posições: estendida (posição A, que não pode ser flexionada nos joelhos ou quadris, e os pés devem estar unidos com os dedos apontados; a posição dos braços ficará a critério do saltador), carpada (posição B, em que o corpo deve ser flexionado nos quadris, porém as pernas devem estar estendidas nos joelhos, os pés devem estar unidos e os dedos apontados; a posição dos braços ficará a critério do saltador), grupada (posição C, em que o corpo deverá estar compacto, flexionado nos joelhos e quadris, com joelhos e pés unidos dentro da corpulência dos ombros; as mãos devem estar na parte inferior das pernas, e os pés, apontados) ou posição livre (D, em que a posição do corpo é opcional, mas as pernas devem estar juntas, e os pés, apontados). 

Já os fatores a serem considerados no julgamento dos saltos sincronizados, executados em duplas, são: 

– similaridade na posição inicial, corrida, saída incluindo altura; 

– coordenação do tempo dos movimentos durante o voo; 

– similaridade no ângulo vertical de entrada; 

– distância similar do trampolim ou plataforma na entrada; 

– coordenação do tempo de entrada. 

Olimpíadas  

Enquanto iam se disseminando, os saltos ornamentais ficavam de fora das Olimpíadas da antiguidade. Mas não por isso deixavam de ser importantes: eram utilizados como etapa de treinamento para outras esportes. Ganharam seu lugar na cobiçada lista de modalidades olímpicas pela primeira vez em Saint Louis 1904, em provas na plataforma e exclusivas para homens. As mulheres assumiram os trampolins a partir de 1912, em Estocolmo. Já a prova de saltos sincronizados passou a integrar o programa olímpico apenas em Sidney 2000.  

Quanto ao domínio na modalidade, suecos e alemães foram os protagonistas até a Primeira Guerra Mundial. Em seguida, foi a vez dos norte-americanos e, a partir da década de 1990, dos chineses. Mas os Estados Unidos seguem em primeiro no quadro de medalhas, com 135 (49 de ouro, 42 de prata e 44 de bronze), seguidos justamente pela China com 59 (33 de ouro) e pela Suécia com 21 (seis de ouro). 

Brasil 

Adolpho Wellisch foi o primeiro atleta a representar o Brasil em Jogos Olímpicos nos saltos ornamentais, participação ocorrida em Antuérpia, na Bélgica, em 1920. O saltador venceu a primeira competição brasileira oficial, realizada na enseada de Botafogo, Rio de Janeiro, em 1913. O esporte está marcado na história do país em Olimpíadas, pois foi um dos cinco com que os brasileiros estrearam nessa competição mundial, na mesma edição belga.  

O Brasil ainda não conta com medalha olímpica. O que não significa que não seja uma potência continental, como demonstrou no último Campeonato Sul-Americano, realizado em março na Argentina, do qual saiu como campeão geral, além de primeiro lugar no masculino e no feminino separadamente.    

Em Tóquio  

As vagas do Brasil para as Olimpíadas de Tóquio estão sob polêmica a poucas semanas do início da competição. Isso porque os saltadores brasileiros haviam garantido quatro vagas para os Jogos através da Copa do Mundo da modalidade, torneio classificatório. No entanto, após o fim dessa competição realizada no início de maio já em Tóquio, a Federação Internacional de Natação (Fina) comunicou a desclassificação dos atletas Isaac Souza (plataforma de 10 metros) e Luana Lira (trampolim de 3 metros).  

De acordo com o Comitê Olímpico do Brasil (COB), a Fina alterou as regras de classificação por perceber que o número de vagas disponibilizadas foi maior do que deveria, considerando apenas os finalistas da Copa do Mundo, não mais os semifinalistas. O COB e a CBDA protestaram e podem levar a questão à Corte Arbitral do Esporte. Com isso, os representantes do Brasil nas Olimpíadas confirmados até o momento são Kawan Pereira e Ingrid Oliveira, ambos na plataforma de 10 metros.  

Crédito: Thalis Nicotte

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