Remanescente da Grécia Antiga, a Luta Olímpica é a ligação entre a Era Antiga e a Moderna das Olimpíadas

Apesar de nunca ter conquistado nenhuma medalha, Brasil tem boas esperanças com Laís Nunes, primeira brasileira a conseguir o ouro pan-americano nas três categorias etárias internacionais 

Foto de capa: Rebeca Doin 

Por Leo Bronstein e Rodrigo Glejzer 

Dois lutadores dando golpes acrobáticos no ringue. Escadas, cadeiras e o que mais tiver ao alcance podem ser usados como armas. Um deles cai no chão, o outro fica por cima a fim de imobilizar, e o juiz começa a contagem. As luzes apagam, um terceiro atleta aparece, dessa vez mascarado, e evita o fim da luta. Agora é um 2 contra 1 sem regras.  

É bem capaz de que, quando se lê “luta livre” em um texto, se associe à cena acima, mas o que se vê nas Olimpíadas não tem nada a ver com o que é apresentado pela famosa franquia “World Wrestling Entertainment” (WWE), em ação desde 1953, ou até mesmo pelos “Telecatch”, antigo programa da TV Excelsior e hoje reformado como “BWF Telecatch.  

Nos espetáculos citados, tudo não passa de uma grande encenação. Assemelha-se muito mais a uma performance teatral, com roteiro voltado à construção de mocinhos e vilões, do que a uma prática esportiva competitiva. Enquanto que, em Tóquio, seja no estilo livre ou greco-romano, os atletas irão praticar uma das modalidades mais antigas não só do programa olímpico, mas da humanidade. 

A luta livre olímpica funciona de uma maneira bem diferente do show-off americano – Foto: WWE

Contexto Histórico 

A luta livre tem origem na Grécia Antiga, com suas competições incluídas na literatura grega, inclusive mencionadas na Odisseia de Homero, e disputadas em diferentes categorias ao longo da história. Nos festivais, podiam ser combates tipo pále, sem a utilização de golpes diretos (como murros e pontapés), pýgme, mais parecido com o boxe no qual o foco é a troca de socos, e pancratista, a variedade de peleja mais violenta e que envolvia uma mistura de estilos de lutas (algo como o MMA hoje em dia). Muitos desses confrontos remontavam a antigos heróis, como Teseu, Hércules (ou Héracles) e Perseu, e seus feitos na Antiguidade. Também fazia parte do Pentatlo, que era o campeonato atlético que incluía saltos, corrida, lança e lançamentos de disco.  

Como esporte olímpico, estreou no ano de 704 a. C., e não existiam muitas regras. O principal era que ambos os lutadores combatessem completamente nus, com os corpos cobertos de azeite de oliva, e focados apenas em derrubar o oponente no chão por pelo menos três vezes. Assim como as demais competições olímpicas, as lutas eram disputadas na cidade de Olímpia, perto dos templos voltados a Zeus e Hera, as duas maiores divindades gregas. É importante frisar que, na época dos Jogos, uma trégua entre as cidades-estados gregas era firmada, para que tanto os cidadãos como os competidores pudessem viajar sem medo de serem alvejados pelas tantas guerras que aconteciam na região, tornando as Olimpíadas um raro momento de paz entre gregos. 

Esses confrontos internos eram tão corriqueiros e notórios que foram responsáveis por enfraquecer a soberania local e dar margem para invasões estrangeiras como de macedônios e romanos, principalmente após o embate entre Atenas e Esparta, as duas principais cidades-estados, durante a Guerra do Peloponeso. O resultado do domínio exterior foi a extinção das Olimpíadas no ano de 393 a.C. pelas mãos do imperador romano Teodósio I, que passou a adotar o cristianismo como principal religião e começou a proibir qualquer manifestação pagã.  

Segundo o site da Federação Internacional de Luta-livre, mesmo com o fim dos Jogos, a luta ainda continuou a ser exercida durante a Idade Média e a Renascença. Considerada um esporte de elite, foi praticada por importantes figuras históricas como os pintores Caravaggio, Rembrandt e Courbet, os escritores Rabelais, Montaigne e Locke e o filósofo Jean-Jacques Rousseau. A partir de 1830, na França, a luta passou a perder as características de atividade recreativa, e começaram a aparecer os primeiros lutadores profissionais.  

Para os gregos, Hércules teria usado técnicas da pancratista para derrotar o Leão da Neméia durante “Os Doze Trabalhos” – Foto: Yaroslav Radetskyi 

O início foi difícil, já que os atletas tinham que se juntar em caravanas para viajar pela França a fim de mostrar seus talentos. As lutas ganharam contornos de entretenimento ao serem apresentadas junto a exposições de animais selvagens e artistas de circo. Apresentados como “Destruidores de Aço”, “Quebradores de Ossos” ou “Os mais fortes do mundo”, os lutadores desafiavam o público a derrubá-los em troca de dinheiro. Em 1848, o showman francês Jean Exbroyat criou a primeira trupe de circo de lutadores modernos e estabeleceu como regra não executar pegadas abaixo da cintura. Após a morte de Exbroyat em 1872, o advogado Rossignol-Rollin assumiu a direção do grupo.  

A influência francesa estendeu-se pela Europa, e o novo estilo circulou com o nome de luta greco-romana. As lutas profissionais foram organizadas em todo o continente com programas e regras de competição que variavam ​​de acordo com o gosto dos lutadores, dos empresários e do público. A falta de uma boa organização gerou um declínio da prática por causa do aumento das lutas pré-combinadas. As coisas só voltaram a melhorar quando o Barão de Coubertin conseguiu retornar com as Olimpíadas em 1896.  

O amadorismo olímpico fez com que a luta greco-romana profissional fosse readaptada em clubes e escolas, contribuindo para que a prática se popularizasse e favorecesse sua esportivização. Introduzida no quadro olímpico desde a primeira edição da Era Moderna, a luta greco-romana ficou de fora da edição de 1900. Em 1904, na edição nos EUA, a luta livre foi disputada pela primeira vez, apenas por atletas americanos e sem os greco-romanos. Nos Jogos seguintes, em Londres (1908), ambas as categorias passaram a ser disputadas. As mulheres entraram na luta olímpica apenas em 2004, em Atenas, e somente no estilo livre. Até hoje, a luta greco-romana é fechada apenas para homens nas Olimpíadas.   

Em 2013, mesmo sendo um dos eventos mais antigos das Olimpíadas, a luta livre chegou a ser votada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para ficar de fora do programa oficial a partir de 2020. O motivo era a baixa audiência e consequente pouca rentabilidade. No entanto, a categoria ficou em uma lista de espera, junto a outras sete modalidades (Beisebol/softbol, Caratê, Squash, Patinação, Escalada, Wakeboard, Wushu). Em 2014, os delegados do COI se reuniram em Buenos Aires e votaram a favor da volta da luta olímpica ao quadro de eventos pelo menos até 2024. 

Em 1913, Gustav Fristensky enfrentou Josef Smejka na mais antiga luta profissional registrada em câmera – Crédito: WRESTLiNGHDD 

Regras e Diferenças entre Luta Livre e Greco-Romana  

Apesar de os estilos greco-romano e livre fazerem parte da luta olímpica, ou Wrestling, as categorias têm uma certa diferenciação quanto à forma de lutar. A principal delas é em relação ao uso das pernas. Os lutadores grequistas não podem utilizar os membros inferiores para aplicar os golpes, enquanto os livres não têm problema quanto ao seu uso. Em ambos os casos, estão proibidos quaisquer tipos de socos, chutes ou estrangulamento.  

Crédito: Arlan Almeida

Os combates acontecem em um tapete instalado em uma plataforma maior que 1,1 m ou menor que 0,8 m. A plataforma em torno de cada lado do tapete deve atingir dois metros. Se mais de um tapete for utilizado, 2 m devem separar cada um deles. Um lutador deve ficar de vermelho e o outro de azul, enquanto seus técnicos têm autorização para utilizarem os corners, ou cantos, do local de combate. O corpo de arbitragem é formado por um presidente do tapete, um árbitro e um juiz. As categorias olímpicas na greco-romana são 60 kg, 67 kg, 77 kg, 87 kg, 97 kg e 130 kg. Para o estilo livre, são usados os pesos 57 kg, 65 kg, 74 kg, 86 kg, 97 kg e 125 kg no masculino e 50 kg, 53 kg, 57 kg, 62 kg, 68 kg e 76 kg no feminino.  

O objetivo é igual para as duas modalidades: imobilizar o oponente com as costas para o solo (também conhecido como PinTouché ou Youko). Caso os combatentes não consigam a imobilização, a luta é decidida por pontos, e há uma forma própria de se realizar a contagem em cada estilo. Para os grequistas, os golpes são contabilizados até um dos atletas abrir oito pontos de vantagem. No estilo livre, é preciso ter 10 pontos à frente do adversário. Em ambos os casos, quando a pontuação é atingida, a arbitragem para a luta e consagra o vencedor por superioridade técnica.  

Vídeo explicando como funciona a pontuação na luta olímpica no estilo livre – Crédito: Rodrigo Arashiro 

Na luta olímpica, há uma predominância de países da Europa Oriental, Oriente Médio e Ásia na modalidade. Nas Américas, Cuba tem sido um dos países que melhor tem se apresentado, junto aos EUA. Durante as últimas Olimpíadas, no Rio de Janeiro (2016), os campeões olímpicos foram:  

Greco-romano 

59 kg  Ismael Borrero  Cuba 85 kg  Davit Chakvetadze  Rússia 
66 kg  Davor Štefanek  Sérvia 98 kg  Artur Aleksanyan  Armenia 
75 kg  Roman Vlasov  Rússia 130 kg  Mijaín López  Cuba 

Estilo Livre Masculino 

57 kg  Vladimer Khinchegashvili  Geórgia 86 kg Abdulrashid Sadulaev  Rússia 
65 kg Soslan Ramonov  Rússia 97 kg  Kyle Snyder  EUA 
74 kg  Hassan Yazdani  Irã 125 kg Taha Akgül  Turquia 

Estilo Livre Feminino 

48 kg  Eri Tosaka  Japão 63 kg  Risako Kawai   Japão 
53 kg  Helen Maroulis  EUA 69 kg  Sara Dosho  Japão 
58 kg  Kaori Icho  Japão 75 kg  Erica Wiebe  Canadá 

O Brasil na Luta Olímpica 

Nunca uma medalha foi conquistada pela luta olímpica brasileira nos Jogos de Verão, mas vem de bons resultados esse ano. No Pan-Americano Sênior de Wrestling 2021, na Guatemala, o Brasil conquistou cerca de dezesseis medalhas e ficou com o segundo lugar geral na luta livre e na greco-romana, ficando atrás apenas dos EUA nas duas modalidades. A lutadora Giullia Penalber (57 kg) foi a única a ganhar o ouro pela delegação verde e amarela.  

Crédito: Arlan Almeida

Em Tóquio, Aline Silva (75 kg) e Lais Nunes (63 kg), no estilo livre, e Eduard Soghomonyan (130 kg), no greco-romano, serão os nossos representantes. Silva já foi campeã sul-americana (2012), vencedora do Grand Prix Paris (2014), a primeira brasileira medalhista de ouro em mundiais, e primeiro lugar no tradicional torneio cubano de Cerro Pelado Internacional (2016). Também foi a primeira atleta brasileira a alcançar o posto de número 4 do mundo no ranking internacional da United World Wrestling. Participou das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016.  

Já Nunes foi medalha de ouro na Copa Brasil Internacional (2015) e vice no Pré-olímpico das Américas (2016) e nos Jogos Sul-Americanos (2014). Também esteve presente nas Olimpíadas no Rio de Janeiro (2016). É a primeira atleta brasileira a conseguir medalha de ouro pan-americano nas três categorias etárias internacionais (Cadete, Júnior e Sênior). É a mais jovem atleta a defender o país na Luta Olímpica em uma edição de Jogos Olímpicos, com apenas 23 anos. Vai para sua segunda olimpíada depois de estrear na edição carioca.   

Crédito: Arlan Almeida

Armênio de nascença, Soghomonyan se naturalizou em 2015 e fez fama no cenário nacional ao derrotar Jaoude, um dos maiores nomes da luta olímpica nacional, na seletiva para os Jogos do Rio cinco anos atrás. Nesse meio tempo, o peso-pesado já foi campeão da Copa do Brasil (2015) e do Sul-Americano (2015) e prata no Troféu de Milão (2016). Está indo para a segunda Olimpíada depois de ser eliminado na sua primeira luta nos Jogos de 2016.   

Laís Nunes é uma das principais esperanças de conseguir a primeira medalha brasileira na luta olímpica nos Jogos – Foto: Katia Almeida 

Calendário

Crédito: Arlan Almeida
Crédito: Arlan Almeida
Crédito: Thalis Nicotte

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