Itália vence Inglaterra e garante bicampeonato da Euro

Depois de sair atrás com menos de cinco minutos de partida, italianos conseguem empatar e vencer nos pênaltis, colocando fim ao jejum de títulos desde a Copa do Mundo de 2006 

Foto de capa: UEFA Euro 

Por Rodrigo Glejzer 

Estatísticas do confronto 

Duas das mais importantes seleções do mundo, Itália e Inglaterra já se enfrentaram 28 vezes com dez vitórias para os italianos, oito triunfos ingleses e dez empates. O primeiro confronto aconteceu em 1933, com empate em 1 a 1, no Estádio Nacional do Partido Nacional Fascista, demolido em 1953 e hoje dando lugar ao centro esportivo Estádio Flamínio, em Roma.  

Em grandes torneios, as duas nações jogaram contra pela primeira vez em 1978, com vitória por 2 a 0 da Itália pelo Grupo 2 nas eliminatórias por uma vaga para a Copa do Mundo na Argentina. Nas Eurocopas, o retrospecto também é a favor dos italianos. Foram duas partidas e duas vitórias para a Azzurra. Primeiro em 1980, vencendo por 1 a 0 na fase de grupos, e depois em 2012, batendo os ingleses por 4 a 2 nos pênaltis nas quartas de final.  

Apesar de campeã mundial em 1966, a Inglaterra tem muito pouca experiência em finais de campeonatos importantes. Foi apenas a segunda vez em que os “Três Leões” tiveram a oportunidade de decidir um torneio e a primeira vez em que chegaram à decisão do campeonato europeu de seleções. Todavia vale frisar que a equipe vem em uma crescente depois de ficar em terceiro na Liga das Nações 2019/2020 e quarto lugar na Copa do Mundo de 2018. 

Já a Itália é a segunda maior vencedora da Copa do Mundo, empatada com alemães (quatro títulos para cada) e atrás dos brasileiros (donos de cinto títulos). Primeiro lugar na Euro de 1968, os italianos tiveram outras duas oportunidades, em 2000 e 2012, de conquistar o bicampeonato, mas acabaram derrotados por, respectivamente, França e Espanha nas decisões. Uma das equipes mais regulares do atual campeonato europeu, manteve uma invencibilidade de mais de 30 jogos até chegar à final.  

Em 2012, a Itália superou a Inglaterra nos pênaltis pela Eurocopa e Foto: Imago Imagens 

Palco da Final: Wembley 

Inaugurado em 1923 e reinaugurado em 2007, o estádio de Wembley é a casa da seleção inglesa de futebol. Localizado em Londres, tem capacidade para 90.000 pessoas e já foi sede de finais da Copa do Mundo (1966), Euro (1996) e Liga dos Campeões (2011 e 2013). Também é onde ocorrem as decisões de algumas das principais copas inglesas como a Community Shield e Carabao Cup.  

Na Euro 2020, foi palco de oito partidas, sendo três pela fase de grupos, duas nas oitavas de final e as semifinais. Contudo, por ter recebido seis das sete partidas da Inglaterra, a UEFA foi bastante criticada pelas federações dos demais países participantes do torneio. O fato de o English Team jogar quase sempre em casa foi dado como uma vantagem injusta diante dos seus adversários.  

Mesmo com a Europa ainda monitorando os casos de Covid-19, principalmente das novas cepas que estão sendo descobertas, o governo inglês permitiu que boa parte do estádio fosse aberta ao público devido ao alto número de adultos, cerca de 86% da população segundo o G1, já imunizados contra a pandemia. Foram pouco mais de 67.173 torcedores ao jogo, tendo todos que apresentar comprovante de vacinação antes de adentrar no estádio.  

O estádio de Wembley recebeu a final entre Itália e Inglaterra – Foto: Reprodução/Inside Sport 

Escalações 

Técnico da Inglaterra, Gareth Southgate optou por começar a partida com três zagueiros, tirando Bukayo Saka, titular na semifinal contra a Dinamarca, e colocando Kieran Trippier para atuar como ala pela direita. Pelo lado italiano, o treinador Roberto Mancini preferiu manter a mesma escalação que bateu a Espanha no último jogo.  

Inglaterra: Pickford; Walker, Stones, Maguire; Shaw, Phillips, Rice, Trippier, Mount; Sterling e Kane. Técnico: Gareth Southgate.  

Itália: Donnarumma; Di Lorenzo, Bonucci, Chiellini e Emerson; Barella, Jorginho e Verratti; Chiesa, Immobile e Insigne. Técnico: Roberto Mancini. 

Primeiro tempo 

Se a Itália é mais experiente em decisões do que a Inglaterra, os ingleses pareciam mais atentos do que os italianos no início da final da Euro 2020. Jogando em casa, com a torcida gritando a plenos pulmões, Luke Shaw, aos dois minutos e no primeiro ataque do English Team, recebeu cruzamento de Trippier dentro da área e chutou com força para bater o goleiro Gianluigi Donnarumma, até então apenas duas vezes vazado em sete jogos. Foi o primeiro gol de Shaw pela seleção e o mais rápido em uma decisão de Eurocopa.  

Em vantagem no placar, Southgate praticamente abdicou de atacar para tentar administrar o resultado. A partir dos quinze minutos, os 10 jogadores ingleses passaram a circular a própria área, com direito ao centroavante Harry Kane aparecendo quase como um cabeça de área fazendo proteção na defesa. Na desvantagem, Mancini adiantou as linhas e passou a pressionar no ataque, tentando cortar a linha de passe adversária e contra-atacar rápido. 

Luke Shaw abriu o placar logo no primeiro lance da etapa inicial – Foto: Getty Images 

Com Ciro Immobile apagado na partida, Lorenzo Insigne muito bem-marcado e Jorginho sentindo o joelho (recebeu uma pancada aos 20 minutos e ficou cerca de cinco minutos fora), era Federico Chiesa, na base da individualidade, quem conseguia perturbar a defesa adversária. O atacante da Juventus-ITA, inclusive, armou a melhor chance de empatar, aos 34 minutos, quando fugiu da marcação, abriu pro arremate e fez a bola passar rente à trave de Pickford.  

Dez minutos depois de quase deixar em 1 a 1, a Itália voltou a atormentar a defesa inglesa quando Di Lorenzo cruzou na área, e Immobile, de voleio, acertou o zagueiro John Stones. A bola sobrou para Marco Verratti tentar de fora da área, mas o meia não pegou muito bem na pelota e arrematou fraco para a defesa do goleiro adversário. Foi a sexta tentativa italiana de chutar ao gol, apenas duas com algum perigo, enquanto a Inglaterra se contentou apenas em abrir o placar e defender durante todo o primeiro tempo.  

Segundo Tempo 

A segunda etapa não começou diferente do que terminou a primeira. Os italianos continuaram em cima da defesa inglesa e conseguiram uma boa falta, marcada quase na meia lua, aos cinco minutos. Insigne se postou para bater e assustou Pickford com a bola passando perto do canto esquerdo. A Inglaterra respondeu cinco minutos depois em cabeçada de Maguire para fora. Logo depois do segundo ataque inglês em toda partida, Chiesa aproveitou o contra-golpe, invadiu a área adversária e chutou em cima da marcação. Atento no rebote, Insigne interceptou a bola dentro da área, levou para linha de fundo e disparou para defesa de Pickford.  

Sem dar chance aos ingleses reagirem novamente, Chiesa recebeu passe de Verratti aos 16 minutos, partiu novamente para a área adversária, limpou a marcação e mandou um balaço para nova defesa do goleiro inglês. Percebendo que a Itália chegava com cada vez mais perigo, a Inglaterra começava a tentar responder. Depois de escanteio batido por Trippier aos 18 minutos, Stones subiu para cabecear e forçar Donnarumma a fazer sua primeira defesa na final.  

Após tanto bater no oponente, a Itália finalmente conseguiu empatar aos 21 minutos. O lateral Emerson Palmieri bateu escanteio pela direita e começou uma confusão dentro da área. Verratti se aproveitou da situação e tentou mandar de cabeça no gol, mas acertou a trave direita de Pickford. Contudo a bola ricocheteou e voltou para Bonucci aproveitar o rebote e deixar tudo igual.  

Bonucci empatou o jogo para uma enlouquecida torcida italiana – Foto: Reprodução/Twitter Azzuri 

Com o placar igualado, a Inglaterra pareceu atordoada, ao mesmo tempo que a Itália continuava pressionando pela vitória. Tendo que novamente atacar,  Southgate trocou Trippier por Saka, para atuar como ponta pelo lado direito, e voltou Walker para a posição de lateral, uma vez que estava improvisado de zagueiro.  

Nada que surtisse efeito na partida, pois, mesmo com as mudanças, quem continuava criando as melhores chances no segundo tempo era a equipe de Roberto Mancini. Porém, para azar dos italianos, aos 37 minutos, Chiesa sentiu uma pancada na canela e teve que ser substituído por Federico Bernardeschi. Sem seu melhor jogador, a Azzurra diminuiu a intensidade, e o jogo terminou com a etapa regulamentar empatada.  

Prorrogação 

No tempo extra, há basicamente três lances para se destacar. No primeiro tempo, um belo chute de fora da área feito por Kalvin Phillips à direita do gol de Donnarumma. No segundo tempo, uma falta batida por Bernardeschi, para defesa em dois tempos de Pickford, e duas substituições de Southgate. O técnico inglês, faltando um pouco mais de um minuto para acabar a prorrogação, optou por retirar Henderson, que havia entrado na partida no lugar de Declan Rice, e Walker para colocar, respectivamente, Marcus Rashford e Jadon Sancho apenas para baterem os pênaltis.  

Entrando apenas no final da partida, Rashford e Sancho foram dois dos cobradores ingleses durante os pênaltis – Foto: Laurence Griffiths/Getty Images 

Pênaltis 

Harry Kane e Domenico Berardi, que substituiu Ciro Immobile no segundo tempo da etapa regulamentar, abriram as cobranças de pênaltis e marcaram. Na segunda rodada de cobranças, Harry Maguire acertou a cobrança inglesa, mas Andrea Belotti, que entrou no lugar de Lorenzo Insigne também no segundo tempo da etapa regulamentar, parou em Pickford. Durante a terceira, a situação se inverteu com Bonucci empatando e Rashford acertando a trave. Na quarta, a situação se repetiu, e Bernardeschi colocou a Itália na frente, enquanto Sancho parou em Donnarumma. Para a última e derradeira cobrança, apresentaram-se Jorginho e Saka. O meia brasileiro naturalizado italiano perdeu, mas o ponta do Arsenal-ING também não conseguiu marcar, ambos parando nos goleiros, e, por isso, a Itália voltou a se sagrar campeã europeia depois de 57 anos de espera.   

Donnarumma pega a cobrança de Saka e garante o bicampeonato italiano – Foto: UEFA Euro 

Pós-jogo 

Eliminados na fase de grupos das Copas de 2010 e 2014 e nem classificados para a edição de 2018, o título europeu significou o ressurgimento do futebol italiano depois de seguidas frustrações desde o seu último título mundial em 2006, ainda com a geração capitaneada pelas lendas Gianluigi Buffon, Francesco Totti, Alessandro Del Piero, Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso e Alessandro Nesta. Em entrevista à tv italiana RAI Sports, um dos remanescentes do vice-campeonato da Euro 2012, junto a Giorgio Chiellini, Leonardo Bonucci explicou o sentimento do time quanto ao título. 

“Um gol histórico, é a realização de um sonho, e o crédito vai para o treinador, para toda a equipe. Quando nos reunimos na Sardenha, havia algo diferente em relação ao passado. Aos poucos, ganhamos confiança, certeza, unidade. Essa é a cereja do bolo que nos torna lendas”, ponderou o zagueiro da Juventus-ITA.  

Ainda à RAI Sports, Bonucci não escondeu o quanto foi delicioso vencer os ingleses em seu maior palco, o estádio Wembley, depois de a torcida branca e vermelha bradar, durante toda a competição, que o futebol “estaria voltando para casa” com o título da Euro 2020.  

“É uma sensação única e estamos saboreando isso. Ver 65.000 pessoas partirem antes da entrega do troféu é algo para saborear, agora a taça está chegando a Roma. Eles pensaram que ficaria em Londres, sinto muito por eles, mas a Itália mais uma vez deu uma lição. Dissemos durante o aquecimento que o que estava acontecendo nas arquibancadas era apenas barulho de fundo. Estávamos há 34 jogos invictos, tudo o que precisávamos era fazer exatamente o que tínhamos feito até agora para chegar aqui, nem um pouco mais, nem um pouco menos”, disse o herói do empate italiano na final.  

Capitão da equipe, Chiellini chega à Itália com o troféu em mãos – Foto: Reprodução/Corriere dello Sport 

Se, na Itália, é momento de comemoração, para a Inglaterra é tempo de questionamentos. Bastante criticado pela fase de grupos ruim dos “Três Leões”, Gareth Southgate conseguiu fazer o time funcionar melhor nas oitavas, quartas e semi. No entanto, o fato de optar por administrar o jogo muito cedo, quase logo depois de abrirs o placar, e escolher três garotos para as últimas cobranças, Rashford (23), Sancho (21) e Saka (19), voltou a tornar o técnico alvo da imprensa inglesa.  

“Isso depende de mim. Eu escolhi os batedores de pênaltis com base no que fizemos nos treinos, e ninguém está sozinho. Vencemos juntos como uma equipe, e está totalmente em todos nós em termos de não sermos capazes de ganhar o jogo esta noite. Mas, em termos de penalidades, essa é minha decisão e recai totalmente em mim”, declarou o técnico em entrevista à BBC. 

Capitão da equipe e principal jogador, Harry Kane ainda continuará em sua busca pelo primeiro título por equipes. Depois de faturar os prêmios individuais de artilheiro e líder de assistências da última Premier League, o atacante do Tottenham marcou quatro gols na Euro 2020, atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Patrick Schick com 5 tentos cada, e converteu sua cobrança na final. Não foi o suficiente para tirar a Inglaterra dos 55 anos de espera por um título.  

“Não consegui dar mais, os rapazes não conseguiram dar mais. Os pênaltis são a forma mais desagradável de perder no mundo. Não foi a nossa noite, mas foi um torneio fantástico, e devemos estar orgulhosos para manter a cabeça erguida”, declarou Kane em entrevista pós-jogo. 

Quanto aos jogadores que perderam suas cobranças, o capitão inglês não deixou de se mostrar solidário. 

“São coisas que acontecem, todo mundo pode perder um pênalti. Ganhamos juntos e perdemos juntos. Isso deve ajudar os meninos a crescer e nos dar motivação para a Copa do Mundo do ano que vem”, finalizou o atacante.  

Junto a Maguire, Kane deixou desolado o campo depois de perder a final em casa – Foto: Reprodução/NewsDons  

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