Afegãs sofrem proibição esportiva pelo Talibã similar à das brasileiras na Ditadura Militar

Foto de capa: Reprodução/A Referência

Por Júlia Nascimento

As mulheres do Afeganistão estão muito próximas de mais uma proibição oficializada pelo Talibã: não poder praticar esportes. O grupo extremista, que retomou o poder governamental após 20 anos, informou a nova medida através de seu vice-diretor de comissão cultural, Ahmadullah Wasiq, em entrevista concedida à rede australiana SBS e reproduzida pelo jornal britânico The Guardian na quarta-feira (08/09).  

A modalidade mais afetada pela criminalização será o críquete, uma das mais tradicionais não apenas da região, mas de todo o continente asiático. De acordo com o vice-diretor, o esporte feminino é algo desnecessário e inapropriado, seja ele qual for. Inapropriado pelo fato de, ao se praticar uma atividade física, haver a necessidade de utilização de roupas adequadas, confortáveis, portanto bem distintas de toda a vestimenta exigida pelo islamismo às mulheres, principalmente o niqab. Wasiq também pontuou o perigo que a mídia seria para as afegãs, uma vez que a imagem delas descobertas poderia circular pelo mundo com a globalização. 

“Não acho que as mulheres serão autorizadas a jogar críquete porque não é necessário que mulheres joguem críquete. No críquete, elas estarão em uma situação onde seus rostos e corpos não estarão cobertos. O Islã não permite que as mulheres sejam vistas assim. Esta é a era da mídia, e haverá fotos e vídeos, e as pessoas irão assistir. O Islã e o Emirado Islâmico (como os talibãs rebatizaram o Afeganistão) não vão permitir que as mulheres joguem críquete ou qualquer esporte em que sejam expostas”, avisou Ahmadullah Wasiq. 

Segundo a federação afegã de críquete, ainda não houve um comunicado oficial do Talibã sobre o assunto, porém o programa de formação para meninas já foi interrompido, dando início a mais um possível e provável distanciamento esportivo entre homens e mulheres na história. Há relatos de atletas escondidas no país, como a seleção feminina de críquete na capital Cabul, aguardando a primeira oportunidade de emigração. Vale lembrar que dois atletas afegãos disputaram as Paralimpíadas de Tóquio 2020: Zakia Khudadadi, do parataekwondo, e Hassain Rasouli, do atletismo. Eles foram evacuados de Cabul no dia 23 de agosto e levados até Paris, onde demonstraram interesse em participar da competição. Ficaram com os outros atletas do mundo na Vila Olímpica, mas foram preservados quanto a entrevistas.  

Seleção afegã feminina de críquete, escondida do Talibã por proibição esportiva – Foto: Reprodução/Estadão

Apesar de distantes da “nova” proibição em solo asiático, as brasileiras que viveram as décadas de 1940 a 1980, não orgulhosamente, podem estabelecer uma ponte de similaridades com as afegãs de hoje. Isso porque muitas modalidades foram proibidas no Brasil durante a ditadura militar. Entre 1941 e 1979, futebol de campo, futebol de salão, futebol de praia, polo, polo aquático, rúgby, halterofilismo, lutas e beisebol foram práticas criminalizadas para as mulheres em território verde e amarelo. A diferença é que, aqui, a justificativa não foi de cunho diretamente religioso, e, sim, biológico e ideológico, em prol da “ordem social”.  

Página do jornal impresso O Dia, em 1940 – Foto: Acervo Jornal O Dia/Museu do Futebol

E, definitivamente, as restrições ao sexo feminino pelo Talibã não se restringem ao esporte. Na terça-feira (07/09), foram divulgados os primeiros nomes do governo provisório, todos masculinos, descumprimento que desagradou a União Europeia. Já as universidades, as afegãs podem frequentar desde que utilizando a vestimenta adequada que deixa apenas os olhos à mostra (abaya, véu e niqab), separadas dos homens nas aulas, na hora da saída e sendo ensinadas por professoras ou professores idosos que passem por uma espécie de teste de moralidade.  

Apesar das promessas de amenização de restrições sociais, especialmente às mulheres, feitas à comunidade internacional, o Talibã não vem cumprindo e segue ampliando extremismos incoerentes com os direitos humanos, como fez quando esteve no poder pela primeira vez, até 2001. Baseando-se em sua interpretação do sagrado livro islâmico Alcorão, os integrantes do grupo defendem a separação radical dos gêneros na sociedade, independente dos desejos e reivindicações de mulheres que querem seu lugar em uma sociedade moderna e justa.  

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