“Ganhando ou perdendo, mas sempre com democracia”: a história e a importância da Democracia Corinthiana 

Foto de capa: Reprodução/Mídia Ninja.

Por Lucas Furtado Isaias  

Depois de mais de 20 anos, os brasileiros voltaram a eleger um governador pelo voto direto, mas queriam mais: eleger o presidente do Brasil, situação que não ocorria desde 3 de outubro de 1960 quando a população elegeu Jânio Quadros como presidente do Brasil e João Goulart como vice. O ano era 1982. Ao mesmo tempo, o Brasil começou um movimento que fez história, um clube começou um movimento que iria muito além das quatro linhas e causou uma revolução no futebol. Um diretor de futebol com ideias inovadoras para a época, junto com jogadores que abraçaram a causa, transformaram o Corinthians em um clube símbolo da luta pela retomada democrática do país. Nesta mistura que surge a Democracia Corinthiana, um dos mais importantes movimentos político-esportivos da história do país.  

Em 1981, o Corinthians teve uma desastrosa campanha no Campeonato Brasileiro, em que foi eliminado na segunda fase, que consistia em oito grupos de quatro equipes que se enfrentavam e os dois primeiros avançavam para as oitavas de final. A equipe paulista marcou apenas 1 ponto e ficou em último lugar. Ponte Preta e Bahia avançaram de fase no grupo que também tinha o Santa Cruz. Em um cenário difícil, que Waldemar Pires assumiu o clube em 9 de abril daquele ano, no lugar do folclórico cartola Vicente Matheus, e colocou como diretor de futebol um psicólogo, Adilson Monteiro Alves. Sua chegada causou uma revolução na política do clube com a ideia de todas as decisões do Departamento de Futebol serem tomadas em votação com mesmo peso de voto para jogadores e funcionários. Com exceção da escalação do time, que seguia sendo do treinador, todas as outras decisões eram decididas de maneira conjunta.  

Sócrates, Wladimir, Zé Maria, Casagrande, entre outros, fizeram história em campo e fora dele conseguindo mudanças substanciais como a liberação dos casados da concentração e a divisão do rateio do “bicho” dos jogos proporcional à presença de público nos jogos. Para alavancar ainda mais a imagem do movimento, a Democracia se ligou com o rock, com jogadores indo a shows de Rita Lee, que chegou a vestir a camisa do movimento criando uma identidade forte com o gênero musical que estava em alta nas paradas de sucesso nacional. Washington Olivetto foi contratado para ser o vice-presidente de marketing e ajudou na criação da campanha e do nome do movimento.

Crédito: Divulgação/OGlobo.

Em 1982, o movimento, além de uma atuação vitoriosa em campo, teve um papel forte na eleição incentivando os eleitores a irem às urnas na eleição geral. A atuação da Democracia teve um papel importante para o fortalecimento da oposição no país, apesar do partido governista, o Partido Democrático Social (PDS) ter conseguido a maioria dos governadores, senadores e deputados federais naquele pleito. Nos maiores colégios eleitorais do Brasil, os governos foram dominados pela oposição à ditadura com as vitórias de Franco Montoro (PMDB) em São Paulo, Leonel Brizola (PDT) no Rio de Janeiro e Tancredo Neves (PMDB) em Minas Gerais. 

No mesmo ano, em campo, o Corinthians fez um ano excelente com o título no Campeonato Paulista e chegou às semifinais do Campeonato Brasileiro sendo ali derrotado pelo Grêmio, mas tendo o reconhecimento da torcida. Em 1983, a equipe conquistou o Paulista novamente e, na final contra o São Paulo, surgiu a sua frase mais marcante na camisa dos jogadores: 

“Ganhando ou perdendo, mas sempre com democracia”.  

Em 1984, milhões de pessoas foram às ruas pedir a aprovação da Emenda Dante de Oliveira que daria direito ao povo de votar para presidente. O Vale do Anhangabaú, região central da cidade de São Paulo, foi palco de grandes comícios como também em várias cidades brasileiros e os jogadores do Corinthians apoiaram o movimento que uniu políticos de diversos partidos e artistas. Sócrates, em um destes comícios, disse que se a emenda fosse aprovada não deixaria o país para jogar na Fiorentina. O Senado teve maioria para o projeto, mas não o suficiente para ser aprovada e o craque deixou o país rumo ao futebol italiano e a partir daí o movimento começou a enfraquecer, isso se intensificou com o empréstimo de Casagrande ao São Paulo e a criação do Clube dos 13 que descentralizou o comando dos clubes, em especial, para a gestão de direitos de transmissão de TV.  

Em 1985, o Brasil teve sua última eleição indireta para presidente com Tancredo Neves (PMDB) disputando o cargo contra Paulo Maluf (PDS) com vitória de Tancredo que acabou não assumindo o cargo por problemas de saúde e indo a óbito em 22 de abril do mesmo ano. Em campo, o Corinthians viu o movimento ruir com a derrota de Adílio em uma tumultuada eleição para a presidência do clube na qual foi eleito Roberto Pasqua por 163 votos a 130, e fez finalizar, de vez, o movimento. O presidente eleito contou com apoio de dois ex-presidentes: Vicente e Wadih Helu, que comandou o clube de 1961 a 1971 e o time não teve um bom desempenho nos dois anos de mandato de Pasqua, o que fez ele deixar o comando já em 1987.  

Mesmo com o fim da Democracia Corinthiana, o movimento foi importante para a imagem do time como “Clube do Povo” e para as finanças, já que fez o Corinthians voltar a ter dinheiro em caixa com a boa fase em campo e a atuação histórica fora dele. Alguns jogadores como Emerson Leão dizem que o movimento beneficiou Sócrates, Casagrande e Adílio apenas e que não era tão democrático assim, mas outros exaltam o movimento e o consideram fundamental para a história social do país. Um exemplo de que a democracia está em todas as formas de expressão e que ela será sempre a grande campeã.

Ato Democracia Corinthiana sendo realizado, em 2016. Crédito: Reprodução/Mídia Ninja.

Membros da Democracia na política  

Um dos pedidos de Washington Olivetto para participar da criação do movimento era que os integrantes não tirassem proveitos partidários, mas após o fim do movimento, alguns membros ingressaram no mundo da política. Na eleição municipal de São Paulo em 1985, Zé Maria foi eleito vereador pelo PMDB.  

Três anos mais tarde foi a vez de Biro-Biro pelo Partido Democrático Social (PDS) sendo o quarto vereador mais votado da cidade de São Paulo com 39.178 votos, atrás de Adriano Diogo (PT), Robson Tuma (PL) e Eduardo Suplicy (PT). O PDS foi o partido líder da oposição à prefeita Luiza Erundina (PT) na época que o ex-jogador esteve na Câmara Municipal. O vereador seguiu com a carreira de futebol no período pela Portuguesa, Guarani e Coritiba.  

Adilson Monteiro Alves usou seu prestígio conquistado no movimento e se elegeu deputado estadual na eleição de 1986 com 57.800 votos e reeleito em 1990 com 28.721 votos, ambas pelo PMDB, fazendo parte da base governista, respectivamente, de Orestes Quércia e Luis Antônio Fleury que governaram o estado no período e eram do mesmo partido de Adilson. Seu filho, Duílio, foi eleito em 2020 como presidente do Corinthians em um mandato iniciado em 4 de janeiro de 2021 e que se estende até 31 de dezembro de 2023.  

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