Entre a assombração e a tramoia: as maldições no futebol 

Equipes amaldiçoadas, estádios mal-assombrados, mestre voodoo vingativo e jogador sanguinário. Sejam histórias criativas, artimanhas para atrapalhar rivais ou puro desespero para alcançar um objetivo, atletas, torcidas e clubes não estão a salvo de um mau agouro. Principalmente no Dia das Bruxas 

Foto de capa: Reprodução/Notícias ao Minuto 

Por Rodrigo Glejzer 

Gatos pretos, chapéus de bruxa, doces ou travessas. No Dia das Bruxas, comemorado no fim de outubro, pessoas de todas as idades se fantasiam de lendas urbanas, monstros hollywoodianos e celebridades do além para assistir a filmes de terror e preparar lanches fantasmagóricos.  

Conhecido pelos jogadores famosos e campeonatos milionários, o velho esporte bretão também é recheado de histórias assombradas. O Halloween acaba sendo a época perfeita para revirar diversos contos sobre maldições acossando clubes e jogadores por gerações. Algumas dessas danações são bem curiosas, seja por envolverem um “atleta serial killer” ou um mau agouro envolvendo o espírito de sete gatos. 

Dia das Bruxas é a data de celebração do medo, do fantasmagórico e de gatos pretos invadindo gramados – Crédito: OwlKitty 

A maldição de Aaron Ramsey 

Essa é uma das histórias mais curiosas do futebol moderno. Atualmente ligado à Juventus-ITA, o galês Aaron Ramsey fez boa parte de sua carreira no campeonato inglês defendendo as cores do Arsenal-ING. Jogando no meio de campo, sempre foi mais efetivo sendo o garçom do que como goleador. No entanto, a partir de 2009, uma série de coincidências ligou os gols do atleta a algumas personalidades recém-falecidas.  

O primeiro a entrar na lista foi Ted Kennedy. Há seis anos, o político estadunidense e irmão do ex-presidente John F. Kennedy morreu em decorrência de um câncer no cérebro. Até então uma morte trágica, mas sem qualquer indício sobrenatural. Isso mudou quando os fãs do futebol começaram a fazer uma macabra ligação entre Ramsey e o óbito do então senador de Massachusetts. 

Três dias antes de anunciarem o falecimento do filho mais novo de Joseph Kennedy, o atleta galês marcava o último tento da goleada de 4 a 1 aplicada pelos gunners sobre o Portsmouth na Premier League. Desde então, outros notáveis como a cantora Whitney Houston, os atores Alan Rickman e Robin Williams, o magnata Steve Jobs e até o terrorista Osama Bin Laden foram vítimas da “Maldição de Ramsey”. 

O canal de YouTube Futirinhas fez um vídeo detalhando a ligação entre os gols de Ramsey e o falecimento das celebridades – Crédito: Futirinhas 

Segundo o Daily Star, dos 74 gols marcados pelo camisa 8, cerca de 23 teriam sido acompanhados desta coincidência mórbida. Em 2015, depois de a lenda envolvendo o mau agouro de seus gols viralizar, Ramsey resolveu falar sobre o assunto em entrevista à Sport Magazine. Usando do bom humor, afirmou que tudo não passa de “apenas um boato maluco”:  

“A história mais ridícula que já ouvi é que as pessoas morrem depois de eu marcar (…) Apesar de ser somente uma balela louca, ao menos matei alguns caras maus” afirmou o galês de forma descontraída.  

 
Independente da descrença do astro da Juventus-ITA, a “lista de vítimas” continuou ganhando alguns novos membros. Recentemente, em julho de 2021, foi a vez de Kenneth Kaunda, ex-presidente da Zâmbia, ser acometido pela danação de Ramsey. Abatido por uma pneumonia aos 97 anos, o “Gandhi africano” teve o “azar” de, dois dias antes, presenciar o gol do galês pela seleção contra a Turquia durante a Euro 2020.  

A lista de vítimas da “Maldição de Ramsey” até 2016. Quem será o próximo na lista? – Crédito: Sem Clubismo 

Os Sete Gatos de Avellaneda 

A rivalidade entre torcidas é um dos principais atrativos do futebol. Além dos cantos e das provocações, também é bastante comum ver os torcedores apelando para o sobrenatural com o intuito de derrubar os seus adversários. Na Argentina, os hinchas do Independiente foram, na mesma medida, criativos e sinistros na tentativa de desmantelar a boa fase de seu maior rival, o Racing de Avellaneda.  

Depois de verem o plantel da “La Academia” conquistar o Campeonato Argentino em  1966 e a Copa Libertadores e a Copa Intercontinental no ano seguinte ao título nacional, os aficionados do “Rey de Copas” resolveram tomar providências drásticas. Reza a lenda que, no início da década de 1970, os vermelhos invadiram de forma sorrateira o estádio Presidente Perón, popularmente conhecido como “El Cilindro“, e enterraram sete gatos mortos sob o gol da tribuna popular. 

Coincidentemente, depois da ação dos hinchas do Independiente, o Racing passou a sofrer uma seca de títulos e problemas financeiros. Acabaram rebaixados, em 1983, e permaneceram por duas temporadas na segunda divisão. Quando voltaram à elite, até levantaram um título, a Supercopa Libertadores (também conhecida como Supercopa João Havelange) em 1988, mas, por não ser considerado um campeonato de primeira grandeza, não foi contabilizado para a quebra da maldição. 

Sete almas de gatos para mais de 20 anos de azar – Foto: Reprodução/Pet Dedicated 

Segundo o El País, a torcida azul e branca estava desesperada para pôr fim ao martírio. Enquanto lutavam para sobreviver nos campeonatos argentinos, trabalharam para procurar as malditas ossadas. Acharam seis e ainda acreditavam que seus rivais também haviam enterrado cadáveres de sapos para amplificar o efeito da bruxaria. Em 1998, o Racing apelou ao sacro e convidou um padre para exorcizar e benzer o El Cilindro na presença de 15 mil torcedores. No mesmo ano, o presidente da época, Héctor Daniel Lalín, ordenou a retirada do gramado na busca pelo último bichano.  

Os hinchas da “La Academia” conseguiram reunir os sete sacrifícios, mas, inicialmente, não obtiveram muito sucesso. Em 1999, o clube entrou em processo de falência e só não fechou porque a Blanquiceleste, sociedade anônima gerida por Fernando Marín, interveio e amenizou a crise. Depois de tamanha via crucis, os torcedores do Racing voltaram a ter paz na virada do século.  

Em 2001, Avellaneda voltou a conquistar uma taça importante. Superando o River Plate por apenas um ponto, “La Academia” venceu o torneio Apertura e consagrou-se campeã da primeira fase do campeonato argentino. Para provar que a maldição agora fazia parte do passado, os azuis e brancos ainda triunfaram no campeonato nacional mais duas vezes (2014 e 2018/2019). Maldição quebrada, espíritos felinos libertos e o clube de volta ao seu caminho de grandeza. Pelo menos até os adeptos do “Rey de Copas” voltarem a agir.  

O historiador do futebol Iugh Mattar comenta sobre a “Maldição dos Sete Gatos de Avellaneda” – Crédito: Futebol Coruja 

Os australianos e o feiticeiro voodoo 

Jogar a primeira Copa do Mundo é um sonho para muitos dos países filiados à FIFA. Em 1969, os australianos estavam bem perto de concretizar essa ambição. Após passarem por Japão e Coreia do Sul na primeira fase dos playoffs, os Socceroos tinham apenas o Zimbábue (na época chamado de Rodésia) e Israel como obstáculos para a tão cobiçada vaga no torneio do México.  

Franco favorito, o time da Oceania não esperava ter muitas dificuldades de passar pelos africanos, mas os zimbabweanos mostraram bom futebol e conseguiram segurar os adversários nas duas primeiras partidas (1 a 1 e 0 a 0) em Moçambique. Temerosos em ficar de fora do mundial, os australianos resolveram aceitar a dica de um jornalista local e foram à procura de um bruxo para conseguir uma ajudinha extra através do voodoo. 

O objetivo dos Socceroos era que fosse feito um ritual que os ajudasse a passar pelo Zimbábue. Contratado, o feiticeiro foi até o campo onde o jogo seria disputado, novamente em Moçambique, enterrou alguns ossos perto das traves e lançou uma maldição sobre o time africano. Iniciada a derradeira partida, o goleiro zimbabweano teve uma atuação terrível, e a Austrália venceu por 3 a 1.  

Dito e feito, o bruxo foi atrás do seu pagamento, mas os australianos preferiram ignorar a dívida e simplesmente não pagaram. Furioso, o moçambicano reverteu a maldição e assegurou que os Socceroos não saíssem vitoriosos da partida final. Novamente favorita, a equipe da Oceania não correspondeu às expectativas e acabou derrotada pelos israelenses. A primeira partida terminou em 1 a 0 para Israel, enquanto o jogo de volta ficou no empate em 1 a 1.  

Israel (de camisa branca) e Austrália (com shorts pretos) se enfrentaram em 29 de dezembro 1969 por uma vaga para o Mundial no México – Crédito: British Movitone 

Em sua biografia, o falecido Johnny Warren, capitão da equipe australiana, não soube explicar, exatamente, o que aconteceu contra os israelenses. Somente colocou que “tudo deu errado” e que acreditava piamente que o voodoo do feiticeiro surtiu efeito. Apesar do mau agouro, a Austrália conseguiu a tão desejada vaga em um Mundial na eliminatória seguinte. Classificados para o Mundial em 74, na Alemanha Ocidental, os Socceroos perderam duas partidas, empataram outra e saíram sem marcar nenhum gol.  

Depois dessa breve aparição, a equipe da Oceania demoraria 32 anos para voltar a uma Copa do Mundo. Até o fim da vida, Warren tinha certeza de que a seleção ainda continuava amaldiçoada. Mesmo sendo favorita em, praticamente, toda eliminatória,  a Austrália não conseguia a vaga. A derrota mais icônica foi a de 1997 contra o Irã de Ali Daei.  

Com um de seus plantéis mais talentosos em muito tempo, contando com nomes como Mark Viduka, Harry Kewell, Aurelio Vidmar e Craig Moore, os australianos empataram a primeira partida (1 a 1) em terras iranianas e decidiram a vaga em casa. Depois de abrirem 2 a 0 (Kewell e Viduka), os Socceroos acabaram levando o empate faltando 10 minutos para o fim do jogo, gols de Bagheri e Azizi. Como o Irã marcou mais gols fora de casa, acabou ficando com a vaga para o Mundial na França. Para Warren, apenas a maldição podia explicar os constantes fracassos.  

A questão é que, segundo a BBC, apenas Warren parecia, realmente, acreditar na maldição. As demais delegações australianas acusavam mais a própria incompetência, inclusive na eliminação contra o Uruguai nos playoffs para a Copa do Japão e da Coreia (2002). Coube ao documentarista e satirista John Safran resolver a questão.  

Ele viajou até Moçambique em 2004, entrou em contato com um casal de feiticeiros e, com a ajuda de ambos, desfez o ritual. Coincidentemente, ou não, a Austrália nunca mais ficou de fora de um Mundial. Inclusive, conseguiu chegar, pela primeira e única vez, às oitavas de final durante a Copa da Alemanha em 2006. Talvez o fato de os australianos terem mudado de Federação (indo jogar as eliminatórias na Ásia) e conseguirem acesso a vagas diretas, possivelmente, também tenha ajudado.  

Safran dedicou um episódio de seu documentário “Safran Vs God” ao caso de Warren e à estranha história de voodoo contra a seleção australiana – Crédito: Johnny Warren Fans 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s