Iugh Mattar, o historiador que virou professor virtual e usa o futebol como principal tema de ensino

Por Rodrigo Glejzer

Formado como bacharel e mestre em história pela Unirio, Iugh Mattar está de mudança para a Itália, onde irá realizar o seu doutorado. Interessado em Maquiavel e Renascentismo Italiano quando entrou na faculdade, trocou o autor de “O Príncipe” pela polêmica Copa de 98 por motivo de praticidade. Além da carreira como historiador, Mattar também mantém o Futebol Coruja, um canal no Youtube com 15 mil inscritos, voltado ao ensino de história usando o velho esporte bretão como pano de fundo. 

A Copa de 98 e o Futebol Coruja, os principais trabalhos de Iugh Mattar – Foto: Arquivo Pessoal.

Esporte Em Todo Lugar #2 – Iugh Mattar

A primeira pergunta que vou fazer, até porque também sou formado em História, é qual o motivo que o levou a escolher o curso de História? 

Por que escolhi o curso de História? Olha, vou confessar que foi um pouco ao acaso. Sempre fui bom em história na escola, mas também era em matemática. Acabei tentando economia na UFRJ, porém, prova específica de matemática, vi que não iria querer ficar vendo número pela minha vida inteira. Por sorte, no ENEM não precisa escolher o curso antes de fazer a prova e, antes de sair o resultado, estava pensando em fazer jornalismo ou história. Como consegui nota para história acabei fazendo o curso. Não entrei pensando muito em futebol. Gostava mais de assuntos como renascentismo italiano e revolução francesa.  

Então, você fez o curso de história e vi, pelo Lattes, que chegou a trabalhar com estudos de Maquiavel. Achei interessante porque Maquiavel não tem nada a ver com futebol, são temas sem qualquer ligação, e, vendo a entrevista que você deu pro “Aqui se faz História”, que ao fazer a troca ocorreram alguns problemas. Como é que foi pular do Renascimento, que é um tema que o pessoal curte muito estudar, e começar a se especificar no futebol? 

A mudança foi mais uma necessidade de vida. Entrei para o mestrado no ano seguinte ao golpe da Dilma e não consegui me classificar para uma das bolsas de estudo, porque diminuíram muito as vagas. Acabei precisando começar a trabalhar em shopping e estava sem tempo para trabalhar nas questões envolvendo Maquiavel e o renascentismo Italiano. Como futebol é algo que consumo de forma mais espontânea, tive uma conversa com meu orientador e resolvemos mudar o tema da tese. Então, o problema era ter que enfrentar os professores da própria faculdade que tinham me aprovado para estudar outro tema no mestrado. 

Ainda nessa entrevista pro “Aqui se faz História”, vi que você escreveu um livro sobre a Copa de 98. Esse foi o assunto da sua monografia

Essa foi a minha dissertação no mestrado que transformei em livro posteriormente. Mudo o meu tema para a copa de 98 porque queria entender o motivo de nas derrotas se investiga mais as causas de terem acontecido, procurando os problemas e levantando hipótese, do que nas vitórias. Então como o “Maracanazo” já é algo muito estudado assim como os “7 a 1”, ambas suscitando grande convulsões nacionais, passei a refletir que a copa de 98, onde o Brasil perde a final para a França por 3 a 0 e até então era sua pior derrota, aparentemente não causou um grande trauma na sociedade brasileira. Não é à toa que a capa do jornal seguinte era que o “penta ficou para depois”, vindo daí a ideia do título do meu livro. Fiquei espantado com o otimismo da imprensa mesmo após uma derrota tão vergonhosa como foi em 98. Além disso, é interessante essa Copa por ser a primeira inserida tanto na era da internet, uma revolução dos meios de comunicação, como no processo de globalização, que avança muito no final dessa década de 90. Além disso, é a primeira realizada no “padrão FIFA”, com o Stade de France sendo o primeiro estádio construído nesse modelo. Falando mais de Brasil, é uma copa que aconteceu no mesmo ano de uma corrida presidencial. Observa-se que, a partir de 98, todo ano de Copa do Mundo também é época de eleição para presidente, tornando o Mundial um dos períodos mais importantes de união nacional. Foram diversos motivos que me levaram a estudar a Copa da França inserida no contexto da sociedade brasileira. 

No seu livro, você aborda que a seleção brasileira de 98 tem nos jogadores a representação de algumas características da própria sociedade brasileira. A malandragem do Denílson, que fugia de concentração, e o estilo autoritário do Dunga, chamado de xerifão, são usados como exemplos. Há ainda como fazer essa correlação com as últimas seleções como a convocada em 2018? Você ainda vê a presença dessas figuras entre os jogadores

Para ser sincero, acabei me desligando da seleção brasileira depois da bagunça de Weggis*(evento marcado pela festiva e calamitosa preparação antes do Mundial na Alemanha) em 2006, mas nós podemos pensar na figura do Neymar. Ele representa muito a sociedade brasileira. Uma pessoa que não gosta muito de ser criticada, que sempre quando consegue uma conquista prefere provocar de forma mimada do que comemorar. Agora quanto ao autoritarismo temos a própria CBF. No sentido da falta de sensibilidade em convocar os atletas brasileiros em momento chaves de competições nacionais e arriscando de desfalcar os times. Autoritária no sentido de montar o calendário em que os clubes não têm muita voz. Caso as equipes batam de frente, a CBF tem o poder de desfiliar quem seja contrário. Não vejo um jogador com essa característica como o Dunga, em 98, e o Felipe Melo, em 2010. Agora uma característica que percebi em 98, que também faz parte da seleção atual, é o fator religioso.  

O que na religião pode se estabelecer entre as seleções?   

No último capítulo do meu livro, que é o terceiro, falei apenas da final e usei um conceito do Odo Marquard sobre o surgimento do ateísmo no século XVII. O ser humano passa a fazer história e, por isso, quando tira Deus da equação o próprio homem se torna o acusador e o acusado. Se você pegar os jornais e revistas antes da final, o elemento religioso é presente de maneira bem escancarada. São os jogadores dizendo que já estão rezando pela conquista, as mulheres dos atletas falando que vão à igreja, os torcedores pedindo várias bênçãos e a própria empresa chamando Taffarel de santo. Só no jornal O Globo encontrei 19 menções a esse lado sobrenatural nos quatro dias que antecederam a decisão. Declarações como Deus é brasileiro e aquelas coisas. Só que quando o Brasil perde a final, no dia seguinte, não falam mais deste elemento religioso. Onde está Deus? Se Ele era brasileiro, se todo mundo era Santo, por que o Brasil perdeu? Então uso esse argumento do ateísmo, que o homem é o único culpado, para explicar o porquê da imprensa instaurar um tribunal para procurar o culpado por 98.  

O Futebol Coruja é mais do que um canal sobre futebol. Ele é também uma plataforma de ensino – Foto: Arquivo Pessoal.

E você criou o Futebol Coruja como uma forma de espalhar o conhecimento acadêmico sobre o futebol de uma maneira mais didática. Seria sobre sair da esfera da faculdade e levar o conhecimento a um público maior e diversificado. O que queria lhe perguntar é se você teve um feedback sobre essa iniciativa, se as pessoas têm interesse nesse tipo de conteúdo.  

Olha, talvez uma das maiores dificuldades que tenho dentro do canal, para o crescimento dele, é a forma que faço conteúdo. Porque as pessoas preferem coisas mais simples. Prefere saber a escalação do dia, se o Gabigol foi na pizzaria ou sobre como o jogador Chay atuou na partida do Botafogo do que saber sobre as histórias do Flamengo, do Botafogo ou do passado. Não há muito interesse em saber como esses times representam culturalmente a cidade do Rio de Janeiro por exemplo. Mas a ideia do “Futebol Coruja” é servir como instrumento pedagógico. Para conseguir propor um debate e reflexões sobre a sociedade brasileira, e global, que estamos inseridos. Adoro pegar casos que posso transportar e usar no futebol, estilo Futebol Coruja.  

Qual um bom exemplo de conteúdo recente estilo “Futebol Coruja”

Um exemplo é o Newcastle que foi comprado nesses últimos dias. É procurar entender o por que do clube ser adquirido, quem o comprou, qual a intenção dessas pessoas em comprarem e abrir para debate. Se é correto um time inglês ser adquirido por um sheik árabe, os problemas que têm no país desse comprador. Quando acontece algum caso de racismo, aproveito para propor reflexões e mostrar que não é um caso isolado e pontual, mas algo, infelizmente, bem cotidiano. Então a ideia é sempre estar propondo discussões e recebi muitos feedbacks positivos por conta disto. Já tive meus vídeos mostrados em aulas para introduzir temas principalmente sobre ditaduras (que tem uma playlist só sobre esse assunto no canal do Youtube), nazismo, franquismo e salazarismo entre outros assuntos. Então o feedback é positivo, apesar de pequeno se comparado a postagens sobre quem ganhou de quem, se o juiz roubou, quem o time x vai comprar. 

A última pergunta que gostaria de fazer é se você se considera, hoje, mais acadêmico ou mais influenciador digital

Me vejo mais como um professor virtual. Porque estou um pouco distante de fazer pesquisa, de ficar escrevendo dentro da estrutura universitária, mas estou toda hora escrevendo roteiros para mídias digitais. Tem esse intercambiamento de uma escrita para mídias digitais com um conhecimento e objetivos finais em algo que você assiste dentro de uma sala de aula. 

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