95% NÃO É 100%

POR PROFESSOR ANTÔNIO MORIM

Hoje pela manhã, ouvindo algumas análises sobre o segundo turno da eleição presidencial, uma coisa me chamou particularmente a atenção: a sensação, cada vez mais presente, de que a eleição já estaria praticamente decidida.

O resultado do primeiro turno, claro, colocou Flávio Bolsonaro em uma posição bastante favorável. Foram 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, e alguns modelos probabilísticos já trabalham com um favoritismo significativo de Flávio para o segundo turno.

Mas fiquei pensando nisso não pelo lado político, e muito menos pelo lado da torcida. Fiquei pensando como professor, engenheiro e pesquisador de tomada de decisão.

Porque uma coisa é ser favorito. Outra, bem diferente, é já ter vencido.

E existe um problema interessante quando essas duas coisas começam a se confundir.

Irving Janis, quando estudou o chamado groupthink, identificou entre seus sintomas a ilusão de invulnerabilidade. Quando um grupo passa a acreditar muito no próprio sucesso, essa confiança coletiva pode diminuir a percepção dos riscos. É curioso porque ninguém precisa dizer explicitamente “já ganhamos”. Pelo contrário. Todos continuam dizendo que é preciso manter o foco, trabalhar, não relaxar, prestar atenção em cada movimento. Mas, aos poucos, o comportamento pode começar a revelar uma certeza que o discurso procura negar.

E é aí que mora o risco.

Confiança é fundamental para o desempenho. Excesso de confiança, não. Ele pode produzir justamente o contrário: piorar a qualidade das decisões.

Há ainda outro conceito de que gosto muito, especialmente quando pensamos em gestão de risco: a normalização do desvio, estudada por Diane Vaughan a partir do desastre do ônibus espacial Challenger. Pequenas anomalias vão acontecendo sem consequências graves e, aos poucos, aquilo que antes acenderia uma luz vermelha passa a ser considerado normal. O sucesso anterior começa a funcionar como uma espécie de comprovação de que estamos seguros.

Até o dia em que não estamos.

Talvez por isso probabilidades muito próximas de 100% sempre tenham me interessado. 95% não é 100%.

E dependendo do problema que estamos analisando, os 5% restantes podem ser justamente a parte mais importante da história.

Se um procedimento médico apresenta 95% de chance de sucesso, certamente vamos querer saber o que acontece nos outros 5%. Se um investimento apresenta 95% de probabilidade de determinado resultado, um bom gestor vai olhar com bastante atenção para a cauda dessa distribuição. E se alguém me disser que uma ponte tem 95% de probabilidade de permanecer em pé, sinceramente, eu prefiro não atravessar.

A questão é simples: probabilidade não é destino.

E eleições tornam isso ainda mais interessante porque estamos falando de sistemas essencialmente humanos. Pessoas mudam de opinião. Votos não são transferidos automaticamente. Existe abstenção, rejeição, mobilização, erros de comunicação, acontecimentos inesperados e, sobretudo, emoções. Existem ainda duas semanas pela frente e fatos que simplesmente ainda não aconteceram.

Um modelo probabilístico não nos diz o que acontecerá. Ele nos diz o que tende a acontecer dadas determinadas informações, hipóteses e condições. Mudaram as condições, muda-se o problema.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante para mim neste segundo turno não seja “quem vai ganhar?”. Essa pergunta todo mundo está fazendo.

Eu prefiro outra:

O que precisaria acontecer para aquilo que hoje consideramos improvável acontecer?

Essa é uma pergunta que sempre gostei de fazer aos meus alunos. Porque ela nos obriga a abandonar a certeza confortável e voltar a pensar.

Serve para política, serve para engenharia, serve para economia, serve para empresas e, provavelmente, serve para muita coisa na vida.

95% é muita coisa.

Mas ainda não é 100%.

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