Por Antônio Carlos Morim
Durante muito tempo, aprendemos a imaginar a vida como uma sequência relativamente previsível. Estudar, trabalhar, construir uma carreira, comprar uma casa e, quem sabe, chegar à aposentadoria com alguma tranquilidade. Era uma espécie de contrato silencioso com o futuro.
Mas o futuro parece ter rompido esse contrato.
Vivemos uma multicrise. Crises econômicas, geopolíticas, tecnológicas, climáticas, institucionais e sociais acontecem simultaneamente. E o mais complicado: não são independentes. Uma alimenta a outra, produzindo consequências que dificilmente conseguimos antecipar.
Entretanto, talvez estejamos olhando para o problema pelo lado errado.
E se a maior crise não estiver no mundo, mas nos modelos mentais que utilizamos para compreendê-lo?
Nosso cérebro gosta de padrões, previsibilidade e explicações simples. Foi assim que aprendemos a interpretar a realidade e tomar decisões. O problema é que a realidade deixou de respeitar nossas antigas referências.
Continuamos tentando resolver problemas novos com respostas antigas. Buscamos certezas onde existem probabilidades, estabilidade onde existe transformação e explicações lineares para fenômenos profundamente interdependentes.
Nesse cenário, a inteligência artificial amplia nossas possibilidades, mas também acelera a sensação de que estamos sempre atrasados.
Surge então um paradoxo: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para decidir em que acreditar, o que aprender e como agir.
A aprendizagem contínua aparece como resposta. Mas ela também traz uma inquietação: a sensação de que nunca estamos suficientemente preparados e de que precisamos correr cada vez mais para não ficar para trás.
Talvez o verdadeiro desafio não seja acompanhar todas as mudanças. Isso seria impossível.
Talvez seja desenvolver a capacidade de questionar nossas próprias certezas, desaprender quando necessário e reconstruir continuamente nossa maneira de compreender o mundo.
Afinal, não podemos controlar a velocidade das transformações. Mas podemos transformar a maneira como pensamos diante delas.
E fica uma pergunta: será que o mundo está complexo demais ou estamos insistindo em compreendê-lo com uma cabeça que pertence ao passado?
Antônio Carlos Morim
Gestor Acadêmico da UNIFACHA
