Guilherme Paraense, o primeiro porta-bandeira e medalhista de ouro do Brasil.

Foto de capa: Rafael Cruz e Octávio Neto

Por Rodrigo Glejzer

Primeiro medalhista de ouro e porta-bandeira do Brasil em Olimpíadas, Guilherme Paraense escreveu seu nome no esporte nacional. Nascido em Belém do Pará, no dia 25 de junho de 1884, o futuro campeão olímpico mudou-se para o Rio de Janeiro aos 5 anos de vida, onde começou a frequentar a Escola Militar. Chegando a maior idade, ingressou no exército e em 1912, já com 28 anos, foi promovido a Aspirante Oficial. 

Entre as atividades básicas de um soldado, como patrulhar e cuidar do armamento, Paraense encontrou tempo para praticar e melhorar suas habilidades com armas, principalmente a pistola, logo mostrando habilidade para o esporte com sua mão firme e visão apurada. No final da década de 1910, conquistou tanto o campeonato brasileiro como o sul-americano na modalidade de disparo com revólver. Em 1914, junto a um grupo de atiradores, fundou o Revólver Clube, no Rio de Janeiro, voltado quase que inteiramente à prática do tiro esportivo . 

Segundo o site da Fundação Palmares, o clube favoreceu a realização de torneios e aprimorou o desempenho de atletas dedicados à modalidade. Por seus resultados, Paraense foi convidado a compor a primeira equipe brasileira de tiro e também fez parte da primeira delegação brasileira a disputar uma edição dos Jogos Olímpicos, na Bélgica. Em 1920, embarcaram em direção a Antuérpia cerca de 20 atletas para a primeira participação do Brasil no maior evento esportivo do mundo, vinte e quatro anos após a primeira edição da competição na Era Moderna. 

O primeiro desafio dos brasileiros convocados às Olimpíadas foi angariar recursos que bancassem a travessia do Atlântico. Apesar do Comitê Olímpico do Brasil (COB) já ter sido fundado, em 8 de junho de 1914, a entidade que regia os esportes no país era a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que decidiu não custear as despesas dos atletas. Para Eduardo Ferreira, antigo adepto do tiro e escritor do livro “A história do Tiro Esportivo Brasileiro”, muito da dificuldade em se armar a viagem veio devido à incompreensão de parte significativa da “intelectualidade brasileira”, que atacavam o desporto através de críticas em jornais e revistas, vendo nele “uma ameaça à juventude e à sua formação”, prestando-se mais aos “desocupados e vagabundos”. 

Guilherme Paraense treinando em stand de tiro no Brasil.
Foto: Biblioteca Nacional. 

A difícil viagem para a Bélgica 

Paraense embarcou para Antuérpia no início do mês de julho de 1920, com seus companheiros de equipe (Afrânio Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade e Sebastião Wolf) e toda delegação olímpica brasileira, numa viagem que durou 28 dias, a bordo de um navio mercante chamado Curvello, bancado pela Lloyd Brasileira, uma companhia de navegação estatal fundada em 1894. Os atletas viajaram de 3° classe, em camarotes pequenos, pouco arejados e ainda servidos de comida ruim em uma viagem precária. Os atiradores, inclusive, pediram ao capitão do barco para que dormissem no bar, local mais arejado do que as cabines. Apesar dos problemas, ainda conseguiram tempo e disposição para praticar no convés durante o deslocamento. No itinerário estava prevista uma parada na Ilha da Madeira, região localizada em Portugal, para depois se moverem em direção à Bélgica.  

Pisando em território português, a equipe brasileira de tiro recebeu a notícia que o Curvello conseguiria desembarcar na Antuérpia apenas no dia 05 de agosto, enquanto as competições com armas começariam no dia 22 de Julho. Para chegarem a tempo, foram até Lisboa e seguiram de trem até a cidade sede. Responsável por chefiar a delegação verde e amarela, Roberto Trompowsky, marechal reformado do exército, foi de providencial ajuda ao obter auxílio da embaixada brasileira em Portugal.  

Depois de uma troca de telegramas entre Trompowsky e o embaixador brasileiro, a delegação de tiro conseguiu algumas passagens de trem que os levaram até seu destino. O problema é que o transporte não era voltado a pessoas, mas a cargas e, por isso, os vagões permaneceram abertos durante todo o percurso. Expostos ao vento e às condições do tempo, os atiradores tiveram que aguentar as circunstâncias adversas até chegarem na parada final. Finalmente na Bélgica, perceberam que não só seus alvos como também parte de sua munição haviam sido furtados durante a viagem.  

Exaustos e agoniados com a perda do equipamento, os brasileiros estavam com a moral em baixa para a disputa do pódio. Ainda tiveram que encarar uma última viagem, desta vez de 18km, entre a Antuérpia e o Campo de Beverloo, área destinada aos jogos de tiro e usada pelo exército local para treinos. Em 28 de julho, Paraense e seus companheiros finalmente chegaram para competir com apenas 200 munições calibre 38, quando cada atleta, em uma equipe formada por sete pessoas, precisaria de, no mínimo, 75. Pelo menos tiveram a sorte da competição ter sido adiada e assim conseguiram entrar na disputa a tempo de concorrer pelas medalhas.  

Comitiva brasileira desfilando para o público na Bélgica. Foto: Arquivo Pessoal/Afrânio Costa.  

As Olimpíadas de 1920 

Apesar de todos os problemas enfrentados pelos brasileiros, disputar aquelas Olimpíadas era motivo de muito orgulho. Entre 1914 e 1918, o mundo viu um dos maiores banhos de sangue de sua história, quando a Alemanha, comandada pelo Kaiser Guilherme II, entrou junto com Império austro-húngaro em conflito contra Rússia, França, Reino Unido e Sérvia. Cerca de 20 milhões de pessoas morreram em combate, incluindo diversos atletas que tiveram que deixar suas rotinas de treinos para lutar por seu país.  

Com o conflito findado com a vitória da Tríplice Entente sobre a Tríplice Aliança em 11 de novembro de 1918, as Olimpíadas foram retomadas, após cancelamento em 1916, e passaram a representar a volta da união dos povos. Competidores de diversas nações voltaram a conviver de maneira harmoniosa em nome do espírito esportivo. Contudo, os países derrotados na Primeira Guerra – Alemanha, Áustria , Hungria , Bulgária e Turquia – não foram convidados. A União Soviética, recém formada, preferiu ficar de fora da disputa.  

Terminada a abertura dos Jogos, que aconteceu no meio do evento e não no início como é hoje, os atletas voltaram a seus alojamentos depois de desfilarem para o público presente e verem, pela primeira vez, a bandeira olímpica hasteada. Paraense foi o nosso porta-bandeira na ocasião. Quanto à sede olímpica, os combates foram duros com os belgas e os efeitos das lutas poderiam ser vistos de imediato nas acomodações dos esportistas. Em geral eram salas sem sofisticação, apenas equipadas com camas dobráveis e mobília bem simples. Não existiam pistas de tiro, a grande parte destruída pelo exército alemão, e, por isso, as provas foram disputadas em campo aberto. O Comitê de Tiro também não teria condições de ceder material, nem mesmo os alvos, então os atletas teriam que se virar sozinhos para competir.  

Como a delegação brasileira estava em baixa devido ao roubo de munição, o capitão da equipe de tiro, Afrânio Costa, resolveu procurar formas de resolver o problema. Vendo membros do comitê dos EUA em uma partida de xadrez, Costa decidiu se intrometer e passou a dar algumas dicas de jogadas. Os atiradores Alfred Lane e Raymond Bracken ficaram tão felizes com a perspicácia do carioca que resolveram ceder parte de seu equipamento, 2 mil cartuchos e duas pistolas Colt, feitas especialmente para os competidores americanos usarem nos Jogos, para os brasileiros.  

Agora mais preparados e equipados, os atletas verde-amarelo iniciaram os trabalhos no dia 2 de agosto. Sebastião Wolf, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Guilherme Paraense e Afrânio Costa garantiram a primeira medalha do Brasil em Jogos Olímpicos ao ficarem em terceiro na prova por equipes. Mais tarde, Costa conseguiria o primeiro pódio individual ao ficar com o vice-campeonato da pistola 50m livre. 

A inédita medalha de ouro viria no dia seguinte com Guilherme Paraense na prova de pistola rápida 25m. Acertando em cheio o alvo no último tiro e somando 274 pontos, quatro a mais que Raymond Bracken, o então segundo colocado, o militar brasileiro venceu e subiu no alto do pódio. Para se ter noção do feito, a segunda vitória olímpica brasileira veio apenas 32 anos depois, nos Jogos de Helsinque, com Adhemar Ferreira da Silva no salto triplo. 

Guilherme Paraense (2º da esq. para a dir.) em preparações para a disputa de tiro nas olimpíadas de 1920. Foto: Arquivo Pessoal/Afrânio Costa. 

Volta ao Brasil

Campeão olímpico, Paraense voltou ao Brasil como herói nacional. Segundo o site do COB, o Comitê Olímpico Brasileiro, a notícia das conquistas foi recebida no Brasil com espanto e retratada pelos jornais como um grande feito esportivo. Os atletas foram recebidos com festa e homenagem. O salão nobre do Fluminense foi palco de um encontro da equipe de tiro com o presidente Epitácio Pessoa, que entregou a eles uma placa. Antes tratada com indiferença, a prática do esporte a tiro agora era celebrada por todo o país por sua conquista inédita em solo estrangeiro.  

No Brasil, como atleta, Guilherme seria hexacampeão nacional (1913, 1914, 1915, 1918, 1922 e 1927) e uma única vez sul-americano (1922) antes de aposentar as pistolas. Já na função de militar, participou da Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas na presidência, e, em 1941, chegou ao posto de Tenente-Coronel. Guilherme Paraense veio a falecer em 1968, aos 83 anos, vítima de infarto, e ainda é o único competidor brasileiro a ter ganho uma medalha de ouro no tiro esportivo em Olimpíadas. O paulista Felipe Wu foi o mais perto de conseguir alcançar o feito ao ficar com a prata na pistola de ar 10m nos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro.  

Algumas homenagens póstumas foram feitas a Paraense nas últimas décadas. A primeira foi em 1989, quando foi homenageado pelo Exército Brasileiro ao ter batizado o conjunto de estandes de tiro da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), sediada em Resende (RJ). Nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona, foram feitos selos com seu rosto. Em 2013 e 2014, o revólver usado por Paraense na conquista do ouro olímpico foi mostrado na exposição interativa do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Jogos Olímpicos: Esporte, Cultura e Arte, que passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Ano passado, o COB inaugurou um busto em sua homenagem no Centro Nacional de Tiro Esportivo, localizado no Rio de Janeiro.  

O diretor, jornalista e escritor José Roberto Torero Jr, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995 pelo livro “O Chalaça”, realizou um pequeno vídeo documentário sobre toda a odisseia da equipe de tiro para chegar na Bélgica e conquistar as primeiras medalhas olímpicas brasileiras. Interpretados por um grupo de atores, Afrânio Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Sebastião Wolf e Guilherme Paraense recontam sua trajetória baseadas em relatos, principalmente do diário deixado por Costa, como também em entrevistas. 

Documentário de Torero Jr sobre a ida brasileira a Antuérpia. Crédito: Canal Johnson Willis.

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