Maria Lenk: a mulher que fez história dentro e fora das piscinas

Foto de capa: Rafael Cruz

Por Ártemis Proença

Maria Emma Hulga Lenk Zigler, mais conhecida como Maria Lenk, foi uma figura extremamente importante na história da natação feminina. Filha de Paul e Rosa Lenk, imigrantes alemães que chegaram ao Brasil em 1912, Maria nasceu em São Paulo no dia 15 de janeiro de 1915. Sua irmã mais nova, Sieglinde Zigler, também se tornou nadadora profissional e seu irmão, Ernesto Lenk, seguiu carreira no basquete. 

Sua relação com a natação começou aos 10 anos quando teve uma pneumonia dupla e seus pais acreditaram que nadar faria bem para a saúde da filha. Com a ausência de piscinas, Maria começou a nadar no Rio Tietê, em São Paulo, que na época não era poluído e recebia banhistas. De 1932 a 1935 venceu 4 vezes seguidas a tradicional Travessia de São Paulo a Nado.  

Aos 27 anos já era atleta internacional e foi a primeira mulher sul-americana a competir em Olimpíadas, nos jogos de Los Angeles em 1932. A viagem para competir foi feita em um navio cedido à CBD (Confederação Brasileira de Desportos) e só poderia desembarcar nos Estados Unidos quem vendesse uma determinada cota de café que era transportado no porão durante as paradas nos portos. Chegando em Los Angeles, a federação descobriu que era cobrado 1 dólar para desembarcar, porém, como eles tinham 32 dólares e 67 atletas, foi decidido que apenas os competidores com chance de ganhar medalha poderiam desembarcar. Maria Lenk não estava nesse grupo, mas foi uma exceção e conseguiu descer do navio sem pagar nada.

“O que valia era o conceito do amadorismo. Eu competi com um uniforme emprestado, que tive de devolver quando as provas acabaram”

Maria Lenk
Crédito: Reprodução/Olimpíada Todo Dia.

Apesar de não ganhar medalhas em Olimpíadas, Maria Lenk fez história na natação. Além de ter sido a primeira mulher sul-americana a competir na modalidade, ela é considerada pioneira na natação moderna por ter sido responsável pela introdução do nado borboleta, quando competiu nos Jogos Olímpicos de Verão de 1936 em Berlim, em uma prova de peito.

Em 1939, enquanto se preparava para os Jogos Olímpicos de Tóquio, Maria quebrou dois recordes mundiais individuais, nos 200m e 400m peito, a primeira e única brasileira com esse feito. Devido a Segunda Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos de 1940 em Tóquio não aconteceram, o que foi decepcionante já que ela era a favorita para ganhar a primeira medalha de ouro olímpica de mulheres brasileiras em esportes individuais. Essa conquista só aconteceu 68 anos depois, pela saltadora Maurren Maggi, nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Maria Lenk na capa da revista argentina El Gráfico do 9 de fevereiro de 1940.
Crédito: Reprodução/Wikipedia.

No início dos anos 40, Maria Lenk foi a única mulher da delegação de nadadores sul-americanos que excursionou pelos Estados Unidos, quebrando, durante sua estadia, doze recordes norte-americanos. Lenk aproveitou para concluir o curso de educação física na Universidade de Illinois.

Em 1942, aos 27 anos, ela decidiu abandonar a carreira como nadadora profissional e ajudou a fundar a Escola Nacional de Educação Física da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, a atual UFRJ. Assim, se tornou a primeira mulher a dirigir uma faculdade de Educação Física na América do Sul.

Em 1988, Maria Lenk entrou para o International Swimming Hall of Fame, sendo primeira brasileira a entrar no Hall da Fama da Natação.  

No campeonato mundial da categoria 85-90 anos, realizado em agosto de 2000, ela voltou de Munique com cinco medalhas de ouro, sendo a campeã dos 100 metros peito, 200 metros livre, 200 metros costas, 200 metros medley e 400 metros livres. No torneio, Maria ganhou o apelido de “Mark Spitz da terceira idade”, uma referência às sete medalhas de ouro que o nadador norte-americano ganhou nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972, também em Munique. 

Crédito: Reprodução/Amaral Natação. 

Em 2003 lançou o livro “Longevidade e Esporte”, onde mostrou os benefícios trazidos pela prática de esportes. Em 13 de janeiro de 2007, a prefeitura do Rio de Janeiro publicou um decreto do executivo municipal dando o nome de Maria Lenk para o Parque Aquático dos Jogos Pan-Americanos. 

No mesmo ano, aos 92, ela veio a falecer após passar mal na piscina do Flamengo, quando teve uma parada cardíaca. Todos os dias ela nadava pelo menos 1500 metros, e assim, se despediu da vida fazendo o que mais amava: nadando. 
 

Em 2015, Maria Lenk entrou para a lista das “10 Grandes Mulheres que Marcaram a História do Rio”. 

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